Mapas Estranhos, de Uketsu — quando um mapa esconde muito mais do que um lugar

ALERTA DE SPOILERS: a partir daqui, esta resenha revela acontecimentos importantes de Mapas Estranhos, incluindo a investigação de Kurihara, o passado de sua família, a verdadeira natureza dos desenhos do mapa e a resolução do mistério. Se você ainda não leu o livro, recomendo guardar esta resenha para depois da leitura.

Publicado no Brasil pela Suma, Mapas Estranhos é o mais recente livro de Uketsu, autor japonês conhecido por transformar objetos aparentemente banais em peças de grandes quebra-cabeças. Lançado originalmente no Japão em 2025, o livro chegou ao Brasil em agosto de 2026, com tradução de Jefferson José Teixeira e 264 páginas. A obra retoma Fuminobu Kurihara, personagem que já havia aparecido em outros livros do chamado universo “Estranho” de Uketsu, mas desta vez colocando-o no centro da investigação.

A premissa é bastante simples e, justamente por isso, extremamente eficiente. Kurihara, um jovem universitário prestes a concluir os estudos e com dificuldades para entrar no mercado de trabalho, acaba voltando à antiga casa de sua família materna. Ali, descobre que a avó, Chikako, morreu em circunstâncias bastante suspeitas. Entre os pertences dela existe um antigo mapa, aparentemente desenhado à mão, que mostra uma região isolada, um vilarejo, uma montanha e criaturas que parecem saídas diretamente de uma história de terror. A mãe de Kurihara já havia investigado aquele mapa antes de morrer, deixando para trás uma pesquisa incompleta. O rapaz então decide continuar aquilo que ela começou.

É uma premissa que parece anunciar uma história sobrenatural. E talvez essa seja justamente uma das maiores brincadeiras de Uketsu com o leitor.

Desde as primeiras páginas, o livro cria a sensação de que existe alguma coisa monstruosa escondida naquele mapa. A própria abertura contribui para isso: alguém acorda em meio aos trilhos de um túnel ferroviário, dentro de uma montanha, sem entender como chegou até ali. A cena é claustrofóbica e funciona como uma espécie de promessa. O leitor sabe que aquele acontecimento aparentemente isolado terá alguma relação com o mistério de Kurihara, mas não sabe como as duas histórias irão se encontrar.

E é aí que Uketsu mostra sua principal habilidade: fazer o leitor investigar junto com o personagem.

Kurihara não é exatamente um detetive tradicional. Ele é extremamente lógico, observador e, em determinados momentos, até desagradável. Sua dificuldade em lidar com emoções faz com que trate muitas situações humanas como problemas matemáticos que precisam ser solucionados. No começo, isso pode tornar o protagonista um pouco distante. Entretanto, conforme a história avança, percebemos que essa característica não está ali apenas para transformá-lo em uma máquina de dedução. Ela faz parte da própria história.

Kurihara tem uma relação complicada com a memória da mãe. Existe algo dentro dele que o impede até mesmo de falar sobre ela sem sofrer uma espécie de crise. Por isso, a investigação do mapa acaba sendo também uma investigação sobre si mesmo. A pergunta deixa de ser apenas “o que significa esse desenho?” e passa a ser “por que minha família passou tantos anos tentando descobrir isso?”. Essa dimensão pessoal diferencia Mapas Estranhos de uma investigação puramente cerebral.

O mapa, portanto, funciona em vários níveis. Ele é um objeto dentro da narrativa, uma pista, uma representação geográfica e, principalmente, uma forma de comunicação entre pessoas separadas pelo tempo. E esse talvez seja o aspecto mais interessante do livro.

Uketsu entende que mapas são uma maneira de contar histórias sem utilizar palavras. Um desenho pode mostrar onde alguém esteve, o que alguém viu ou até mesmo aquilo que alguém não conseguiu dizer. Conforme Kurihara compara o mapa com informações sobre a região, percebe que os elementos representados não são simplesmente fruto da imaginação de sua avó. O vilarejo realmente existiu. A região realmente corresponde ao desenho. O túnel realmente existe. E os detalhes que pareciam fantasiosos começam a encontrar correspondentes no mundo real.

A sensação é quase a de montar um quebra-cabeça.

Só que Uketsu tem o cuidado de não entregar imediatamente qual é a imagem que estamos tentando montar.

Daqui em diante, os spoilers ficam ainda mais importantes.

Uma das grandes expectativas criadas pelo livro envolve as criaturas desenhadas no mapa. Afinal, por que alguém desenharia monstros em um mapa antigo? O que aconteceu naquele lugar? Existe realmente alguma coisa sobrenatural vivendo naquela montanha?A resposta é muito mais humana — e, de certa maneira, muito mais perturbadora.

Os monstros não são monstros.

O que parecia representar criaturas sobrenaturais possui outra interpretação. Os desenhos estão relacionados a elementos naturais, especialmente flores, que, observadas e representadas de determinada maneira, assumem uma aparência monstruosa. Essa revelação é importante porque muda completamente a maneira como enxergamos o mapa. Aquilo que parecia uma representação de criaturas passa a ser uma espécie de linguagem visual.

É um daqueles momentos característicos de Uketsu: a resposta estava diante do leitor, mas a expectativa de encontrar algo sobrenatural fazia com que ele interpretasse a imagem de outra maneira.

E isso é muito importante para entender Mapas Estranhos. O livro não está tão interessado em perguntar “que monstro existe naquele lugar?” quanto em perguntar “por que alguém desenharia aquilo dessa maneira?”

A resposta está relacionada ao passado das mulheres daquela comunidade e à necessidade de encontrar uma forma de escapar de uma realidade marcada por violência e opressão. O mapa funciona como uma espécie de código, uma maneira de registrar e transmitir informações sem que determinados homens ou pessoas externas compreendessem imediatamente seu significado. O que parecia ser uma história de monstros acaba revelando uma história profundamente humana.

E talvez seja justamente aí que o livro se torna mais interessante.

Porque Mapas Estranhos brinca constantemente com a nossa expectativa de terror. A capa, os desenhos, o prólogo, as referências a criaturas sobrenaturais e até mesmo o cenário abandonado parecem apontar para uma história de horror tradicional. Mas Uketsu está muito mais interessado no horror produzido pelas próprias pessoas.

Não existe necessariamente uma criatura esperando dentro da montanha. Existe uma história de violência, segredos, medo, silêncio e pessoas tentando sobreviver às circunstâncias em que nasceram.

Essa escolha pode dividir opiniões. Quem entra no livro esperando um grande terror sobrenatural talvez se decepcione. Quem espera um mistério construído em torno de pistas visuais provavelmente encontrará justamente o que procura.

E essa é uma diferença importante em relação a Imagens Estranhas. Enquanto aquele livro trabalha de maneira particularmente forte com a sensação de que uma imagem aparentemente inocente esconde algo terrível, Mapas Estranhos é mais interessado na reconstrução de uma história. O mistério é menos “o que está escondido nessa imagem?” e mais “como todas essas imagens, mapas, relatos e acontecimentos se conectam?”. A estrutura do livro ajuda bastante nisso.

Uketsu alterna diferentes períodos e diferentes formas de narrativa. Temos a investigação de Kurihara, registros relacionados ao passado, documentos e informações que permitem ao leitor reconstruir os acontecimentos. O passado não aparece simplesmente como exposição. Ele é uma peça do quebra-cabeça. Cada novo fragmento muda a maneira como interpretamos aquilo que veio antes.

Também é interessante como o livro trabalha a família de Kurihara. A investigação começa por causa da avó, mas rapidamente percebemos que existe uma cadeia de mulheres tentando descobrir a verdade antes dele. A mãe de Kurihara já havia investigado o mapa e chegado muito mais perto das respostas do que ele inicialmente imagina. Dessa maneira, o protagonista não está começando uma investigação do zero: ele está herdando uma investigação interrompida.

Isso dá ao mistério um componente emocional que não existiria se fosse apenas uma investigação policial. Kurihara não está procurando a verdade apenas porque é curioso.

Ele está tentando terminar algo que sua mãe não conseguiu terminar. E, ao fazer isso, começa também a compreender melhor a própria mãe.

Esse é provavelmente o melhor arco do protagonista. No início, Kurihara parece alguém incapaz de estabelecer conexões emocionais. Ele observa tudo, calcula tudo e tenta racionalizar tudo. Mas a investigação o obriga a confrontar justamente aquilo que ele passou anos tentando evitar. A lógica continua sendo sua principal ferramenta, mas, no final, ele precisa reconhecer que nem tudo pode ser reduzido a uma equação.

O relacionamento dele com Akira também contribui para humanizar o personagem e ampliar a história para além do mistério central. Alguns desses encontros podem inicialmente parecer convenientes demais, mas as conexões vão ganhando sentido conforme a narrativa avança.

O grande acerto: o leitor é colocado dentro da investigação

O que mais funciona em Mapas Estranhos é a sensação de participação.

Você não está simplesmente recebendo a solução de um mistério. Está recebendo pedaços dela. Uma informação aqui.

Um desenho ali. Uma passagem aparentemente banal. Um detalhe sobre o vilarejo. Uma anotação. Uma lembrança. Uma informação sobre a família. E, pouco a pouco, tudo começa a se encaixar.

É uma técnica que Uketsu domina muito bem. O autor sabe que uma pista é mais satisfatória quando o leitor percebe que poderia ter entendido aquilo antes. Por isso, várias revelações funcionam não porque são completamente imprevisíveis, mas porque fazem você voltar mentalmente para momentos anteriores e pensar: “Então era isso.”

Esse tipo de reviravolta é muito mais interessante do que simplesmente esconder uma informação do leitor até o último capítulo.

Ao mesmo tempo, existe uma pequena fragilidade nessa fórmula.

Em determinados momentos, Kurihara parece deduzir informações com uma precisão quase perfeita. Algumas conclusões são tão certeiras que podem diminuir um pouco a sensação de descoberta do próprio leitor. Há momentos em que parece que estamos acompanhando Kurihara explicar uma solução que já foi construída pelo autor, em vez de realmente descobrirmos a solução junto com ele. Essa é uma crítica que também aparece entre leitores da obra original.

Outro ponto que pode incomodar é o ritmo. O livro começa muito bem e mantém uma curiosidade constante, mas algumas partes intermediárias são mais explicativas do que tensas. Depois que determinadas conexões começam a ficar claras, algumas deduções podem parecer excessivamente explicadas.

Por outro lado, isso também é parte do estilo de Uketsu. Ele não está tentando escrever um thriller psicológico tradicional. Ele está construindo um puzzle literário.

E, como puzzle, Mapas Estranhos funciona muito bem.

E o terror?

Aqui está uma das questões que mais merece atenção.

Não leia Mapas Estranhos esperando sentir medo o tempo inteiro.

O livro é vendido como terror e suspense, mas seu terror é muito mais baseado em estranheza, inquietação e descoberta do que em sustos. Não é um livro que depende de monstros pulando das páginas ou de cenas extremamente gráficas.

Na realidade, quanto mais entendemos o significado do mapa, menos precisamos de sobrenatural para que a história se torne perturbadora.

O verdadeiro horror está naquilo que seres humanos são capazes de fazer uns aos outros.

E isso combina muito com o estilo de Uketsu. Em suas obras, objetos cotidianos — uma casa, uma imagem, um mapa — podem esconder acontecimentos terríveis. O objeto em si não é necessariamente assustador. O conhecimento adquirido sobre ele é que o torna assustador.

Afinal, Mapas Estranhos vale a pena?

Sim! Principalmente para quem gosta de mistérios construídos como quebra-cabeças.

É um livro que provavelmente funciona melhor para quem gosta de parar, observar os desenhos, voltar algumas páginas e tentar formular hipóteses. Quem gosta de simplesmente seguir uma narrativa linear pode achar sua estrutura um pouco artificial em determinados momentos.

Mas é justamente essa artificialidade que faz parte da proposta.

Mapas Estranhos não quer apenas contar uma história. Ele quer fazer você decifrar uma história.

E talvez sua maior ironia seja essa: passamos boa parte da leitura procurando monstros, maldições e explicações sobrenaturais, quando a verdadeira história estava escondida em algo muito mais simples — a maneira como as pessoas registram aquilo que não conseguem dizer abertamente.

No fim, o mapa não é apenas um mapa. É memória. É segredo. É sobrevivência. É uma mensagem deixada para alguém que ainda nem havia nascido.

E, quando Kurihara finalmente consegue compreender aquilo que sua mãe e sua avó passaram tanto tempo tentando descobrir, a investigação deixa de ser apenas sobre o passado da família. Ela se transforma em uma maneira de compreender quem ele próprio é.

Para mim, esse é o ponto que faz Mapas Estranhos funcionar melhor: o mistério começa como uma curiosidade sobre um desenho estranho, mas termina como uma história sobre memória, família, violência e as formas que encontramos para deixar uma mensagem quando falar diretamente não é possível.

Uketsu novamente pega algo cotidiano e pergunta: “E se você olhasse para isso com um pouco mais de atenção?”

Depois de Mapas Estranhos, talvez você nunca mais olhe para um mapa da mesma maneira.

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