
Até Encontrar Meu Marido (Boku ga Otto ni Deau Made), de Ryousuke Nanasaki, com ilustrações de Yoshi Tsukizuki, é uma obra que, apesar de trazer no título a ideia de uma busca pelo amor, fala sobre algo muito maior. Baseado no ensaio autobiográfico de Nanasaki, o mangá acompanha diferentes momentos de sua vida enquanto ele tenta compreender seus sentimentos, enfrenta as dificuldades de crescer como um jovem gay no Japão, descobre a comunidade LGBTQIA+ e, principalmente, aprende a encontrar seu próprio espaço em um mundo que nem sempre parece preparado para acolher aquilo que foge do esperado.
A história começa muito antes de Ryousuke encontrar o homem que se tornaria seu marido. E essa é uma das características mais interessantes da obra. Antes de existir um relacionamento, existe um jovem descobrindo seus sentimentos, vivendo seus primeiros amores e tentando compreender o que significa ser diferente. O mangá acompanha justamente esse processo de amadurecimento, passando pelos primeiros sentimentos, pelas experiências amorosas, pelos encontros em sites de relacionamento e pela descoberta de pessoas com experiências semelhantes às suas.
É nesse processo que Até Encontrar Meu Marido consegue ser tão sensível. A descoberta da sexualidade não aparece como um acontecimento isolado, mas como parte de uma trajetória de crescimento. Ryousuke precisa lidar com as próprias inseguranças enquanto tenta encontrar um espaço em que possa ser verdadeiramente ele mesmo. E talvez uma das questões mais bonitas da obra esteja justamente aí: antes de encontrar alguém que o ame, ele precisa aprender a compreender e aceitar a própria existência.
A narrativa também não transforma a vida amorosa do protagonista em um conto de fadas. Existem paixões não correspondidas, situações constrangedoras, encontros que não saem como esperado e diferentes obstáculos no caminho. A própria descrição oficial da obra destaca esses “tropeços e recomeços”, apresentando a trajetória de Ryousuke como uma busca por amor que também envolve amadurecimento e autoconhecimento.
Isso torna a história particularmente humana. Ryousuke não é apresentado apenas como alguém que sofre por ser gay ou como um personagem cuja vida se resume à luta contra o preconceito. Ele é uma pessoa vivendo experiências bastante comuns: se apaixonando, criando expectativas, se decepcionando, procurando companhia e tentando entender o que deseja para sua própria vida. A sexualidade faz parte fundamental dessa trajetória, mas não é a única coisa que define quem ele é.
Outro aspecto importante é a descoberta da comunidade LGBTQIA+. Para Ryousuke, encontrar outras pessoas que compartilham experiências semelhantes representa uma mudança significativa. Depois de tantas experiências individuais, existe finalmente a possibilidade de perceber que sua história não é única e que existem outras pessoas procurando exatamente aquilo que ele procura: pertencimento, afeto e a liberdade de viver sem precisar esconder uma parte de si. A busca por uma comunidade aparece, inclusive, entre os momentos centrais destacados nas sinopses oficiais da obra.
E é justamente por isso que considero um pouco limitado enxergar Até Encontrar Meu Marido apenas como uma história romântica. O marido existe, obviamente, e a construção da vida amorosa é uma parte importante da narrativa, mas o verdadeiro percurso do mangá está na transformação de Ryousuke ao longo dessa caminhada. Encontrar alguém não significa simplesmente chegar ao final de uma busca. Significa também compreender melhor quem somos e o que desejamos construir ao lado de outra pessoa.
O próprio título ganha um significado diferente quando observamos toda essa trajetória. Até Encontrar Meu Marido pode parecer inicialmente uma história sobre chegar a uma pessoa específica, mas, depois de conhecer o caminho percorrido pelo protagonista, a expressão “até encontrar” passa a representar todos os encontros, experiências, descobertas e recomeços que aconteceram antes desse momento. O marido é uma parte importante dessa história, mas não é a única coisa que define a vida de Ryousuke.
A obra também ganha uma dimensão ainda maior quando lembramos que a história está diretamente ligada à trajetória real de seu autor. Ryousuke Nanasaki se casou com seu marido em 2016, em uma cerimônia que se tornou a primeira união entre pessoas do mesmo sexo reconhecida religiosamente no Japão. A própria JBC destaca esse aspecto ao apresentar a obra brasileira, enquanto a editora internacional Seven Seas também descreve o casamento como o primeiro casamento homoafetivo religiosamente reconhecido na história japonesa.
Isso faz com que a ideia de casamento tenha um peso especial dentro da narrativa. Não se trata apenas de encontrar uma pessoa para amar, mas de poder construir uma vida ao lado dela e reconhecer esse vínculo como parte legítima da própria história. O romance, nesse contexto, acaba assumindo também um significado de pertencimento e de afirmação da própria identidade.
As ilustrações de Yoshi Tsukizuki contribuem para preservar o caráter íntimo da narrativa. Como adaptação de um relato autobiográfico, o mangá precisa equilibrar acontecimentos pessoais, memórias e emoções, e o trabalho da artista ajuda a transformar essas experiências em uma leitura visualmente acessível. Tsukizuki é responsável pela adaptação em mangá ao lado de Nanasaki, e a obra mantém justamente essa característica de relato pessoal transformado em narrativa ilustrada.
É uma leitura que pode ser dolorosa em alguns momentos, principalmente por tratar de inseguranças, rejeições, amores não correspondidos e das dificuldades encontradas por Ryousuke durante seu processo de amadurecimento. Mas Até Encontrar Meu Marido não permanece preso à dor. A própria JBC define a obra como uma história de amor “agridoce, mas cheia de esperança”, e essa talvez seja uma das melhores maneiras de descrevê-la. Existe esperança porque a trajetória de Ryousuke não termina nas experiências que o machucaram. Ele continua conhecendo pessoas, vivendo novas experiências, encontrando seu espaço e construindo relações. O tempo e a perseverança passam a ter um papel importante nessa caminhada, mostrando que algumas feridas não desaparecem de uma hora para outra, mas podem deixar de controlar a maneira como enxergamos nosso futuro.
Talvez essa seja justamente a mensagem que permanece depois de fechar o mangá. Antes de encontrar um marido, Ryousuke precisou encontrar seu próprio caminho. Precisou conhecer seus sentimentos, viver suas experiências, encontrar outras pessoas e descobrir que também poderia construir uma vida de acordo com aquilo que realmente desejava. O romance, então, deixa de ser apenas a chegada a outra pessoa e passa a representar também uma conquista pessoal.
Até Encontrar Meu Marido é, portanto, uma obra sobre amor, mas também sobre identidade, pertencimento, amadurecimento e aceitação. É uma história sobre uma pessoa que passa por diferentes fases até encontrar não apenas alguém para dividir a vida, mas também um espaço onde possa existir de maneira mais autêntica. E talvez seja isso que torne a obra tão especial: não estamos apenas acompanhando Ryousuke encontrar alguém para amar. Estamos acompanhando sua trajetória até compreender que ele também merece ser amado sem precisar deixar de ser quem é.
No fim, Até Encontrar Meu Marido não é simplesmente uma história sobre encontrar o amor. É uma história sobre o caminho percorrido até acreditar que esse amor também pode fazer parte da nossa vida. Sobre os primeiros sentimentos, os tropeços, as descobertas, os encontros e os recomeços que nos transformam ao longo do caminho. E, acima de tudo, sobre a possibilidade de olhar para a própria história e perceber que aquilo que um dia parecia ser motivo para se esconder também pode fazer parte daquilo que nos torna quem somos.
Para mim, é uma obra que merece ser conhecida justamente por sua humanidade. Porque, por trás das questões sobre sexualidade, relacionamentos e preconceito, existe algo extremamente universal: o desejo de encontrar um lugar onde possamos ser nós mesmos, amar e construir uma vida sem precisar pedir desculpas por aquilo que somos.
E talvez essa seja a parte mais bonita de toda essa jornada: algumas pessoas passam anos procurando alguém para amar, quando, antes disso, precisam descobrir que também são dignas de serem amadas.
Título: Até Encontrar Meu Marido
Título original: Boku ga Otto ni Deau Made
Autor: Ryousuke Nanasaki
Arte: Yoshi Tsukizuki
Gênero: Slice of life, romance e autobiografia
Formato: Volume único
Edição brasileira: JBC
Páginas: 216
Classificação: 16 anos
Edição brasileira: capa dura, com marcador de brinde.

No responses yet