
O SiM (Silence iz Mine) lançou HOOMAN AFTER ALL em 2 de setembro de 2026, seu sétimo álbum completo. O disco tem 12 faixas e cerca de 39 minutos de duração. É o primeiro álbum da banda em três anos e sucede PLAYDEAD.
Antes mesmo do lançamento, MAH descreveu o álbum como uma homenagem à era de ouro do rock do fim dos anos 1990 e começo dos anos 2000, acrescentando que o disco mistura essa nostalgia com elementos de reggae, ska, hip-hop, pop-punk e breakdowns.
E existe uma peculiaridade importante: gatos não são apenas uma piada isolada no disco. A própria Pony Canyon explica que “hooman” é uma gíria usada, do ponto de vista de animais como cães e gatos, para se referir a humanos; a capa também apresenta MAH com seu gato.
1. FiVE TiMES DEAD (by my wallet)
A abertura do álbum é praticamente uma pequena comédia de desastre.
O narrador precisa pegar um voo para Los Angeles. Está atrasado, tem bagagem, precisa sair rapidamente e começa a perceber que está faltando alguma coisa:
- Primeiro, a carteira.
- Depois, o passaporte.
- Depois, a chave do carro.
E cada descoberta transforma o problema em uma nova “morte”. A letra transforma uma situação cotidiana extremamente irritante em uma espécie de catástrofe apocalíptica particular. O narrador não está literalmente morrendo: ele está “morto” de desespero.
O detalhe mais engraçado é que a música não termina com uma grande revelação existencial. Ele simplesmente encontra as coisas e percebe a confusão da situação.
Por que funciona como abertura?
Porque apresenta imediatamente uma característica fundamental do álbum: o SiM não está interessado em parecer sério o tempo inteiro. A música é pesada e frenética, mas a história é deliberadamente banal. É uma maneira excelente de dizer:
“Sim, somos uma banda pesada. Mas também somos capazes de transformar perder uma carteira em uma ópera de três minutos.”
- Função no álbum: abrir a porta para um disco pesado, nostálgico e completamente irreverente.
- Nota: 9/10
2. BLiNDEYES feat. Yukina from HANABIE.
Aqui o humor desaparece quase completamente. “BLiNDEYES” é uma música de confronto.
MAH fala com alguém que se apresenta como moralmente superior, mas cuja conduta não corresponde ao discurso. A letra utiliza imagens ligadas a autoridades ou figuras que se colocam no topo moral, enquanto o narrador aponta a contradição entre essa imagem e suas atitudes.
O título funciona como metáfora para pessoas que não querem enxergar aquilo que estão fazendo. Não é simplesmente “você não consegue ver”; é mais próximo de “você escolhe não ver”.
O centro da música:
A palavra japonesa sumimasen normalmente está ligada a “desculpe” ou “com licença”. Mas MAH usa a expressão “sumimasen dewa sumimasen” para construir justamente a ideia de que um simples pedido de desculpas já não resolve a situação. MAH explicou isso explicitamente quando apresentou a música.
E aí entra a ideia de karma: o indivíduo prejudica os outros, tenta se proteger, oferece desculpas, continua repetindo o comportamento e finalmente precisa enfrentar as consequências.
A participação de Yukina, da HANABIE., não é um detalhe decorativo. A música foi concebida como uma faixa de raiva, e MAH destacou que Yukina acrescentou exatamente o tempero necessário para essa agressividade.
Existe ainda uma explosão vocal em japonês no meio da música que quebra deliberadamente o fluxo em inglês e aumenta o caráter caótico da faixa.
- Nota: 9,5/10
3. DALALA
A letra de “DALALA” é caótica e direta. Ela fala de ataque, consequências, destruição e de entrar voluntariamente no desconhecido (“leap into the unknown”). A ideia de saltar para o desconhecido marca o tom: o narrador parece estar diante de uma situação fora de controle, mas, em vez de recuar, escolhe avançar.
E “DALALA”?
O refrão transforma essa situação quase apocalíptica em algo absurdamente divertido e cantarolável. É como se a música dissesse: o mundo está desmoronando, então vamos pular dentro dele cantando. Isso cria uma contradição muito característica do SiM: violência sonora combinada com diversão irônica.
A referência a “mandala”:
A música faz menção à ideia de mandala. A mandala é tradicionalmente associada a representações simbólicas de totalidade e organização. Dentro de uma música deliberadamente caótica, a palavra ganha uma função interessante de contraste: haverá uma ordem escondida no meio do caos?
- Nota: 9,5/10
4. HOLD MY BEER
O título utiliza a famosa expressão da cultura de internet (“Hold my beer”), usada quando alguém está prestes a fazer algo arriscado ou absurdo. A letra constrói uma postura de provocação e bravata. O narrador passa boa parte da faixa desafiando outra pessoa e se apresentando como alguém perigoso, preparado para a briga e que não aceita ser subestimado.
Mas há uma virada importante: por trás da postura agressiva existe camaradagem. A música transita de uma provocação de confronto para a ideia de ajudar o outro quando ele estiver no chão, além de o próprio narrador admitir que também está enfrentando sua própria bagunça interna.
A contradição é a graça:
A faixa transita da atitude de durão para o reconhecimento da vulnerabilidade compartilhada, dando um tom muito humano e divertido ao som.
- Nota: 9/10
5. Karen’s Son
Aqui temos uma faixa que aborda dinâmicas de hostilidade social. O narrador fala sobre alguém que ocupa uma posição de arrogância ou superioridade , alguém que pisa nos outros e se considera melhor que os demais.
O ponto interessante é a postura do narrador, que ressalta como o conflito e as marcas do passado acabaram criando uma pele mais resistente. A agressão sofrida não é apagada, mas é transformada em resiliência.
Depois vem o tom sarcástico do título: desacreditar essa figura arrogante reduzindo-a a simplesmente o “filho da Karen”, brincando com o estereótipo contemporâneo da pessoa autoritária e mimada. A letra também reflete sobre ciclos de comportamento e questiona se essa postura tóxica continuará sendo transmitida para as próximas gerações.
- Nota: 8,5/10
6. The Sniffing Cats Ska feat. HEY-SMITH
Aqui começa uma das partes centrais do conceito do álbum. A música fala literalmente sobre gatos e o hábito de cheirá-los.
A letra coloca lado a lado a rotina humana, o trabalho, o consumo, as desigualdades e o vazio da existência, comparando a vida a um ciclo repetitivo de nascer, trabalhar e morrer. E então oferece uma resposta absurda: “sniffing cats”.
Mas é uma solução real?
Essa é a graça. A música reconhece o peso da vida cotidiana e oferece a coisa mais ridícula e afetuosa possível como alívio cômico e existencial. É o humor absurdo usado para lidar com o niilismo.
A participação do HEY-SMITH faz todo sentido musicalmente: o próprio título anuncia o “Ska”, e a colaboração traz uma conexão direta com uma das maiores referências do ska-punk japonês.
Por baixo da piada, há a pergunta: “onde foi que nós erramos?”. Se a vida pode parecer caótica, encontrar conforto nas pequenas coisas engraçadas (como gatos) torna tudo mais suportável.
- Nota: 10/10
7. HOOMAN AFTER ALL
A faixa-título sintetiza a proposta do disco. A letra observa o comportamento dos seres humanos a partir de uma perspectiva felina. Como explica a Pony Canyon, “hooman” é a expressão usada na perspectiva dos animais para se referir aos humanos.
A música apresenta episódios e recortes com diferentes personagens (como Alex, Fletch, Morgan e Kate), mostrando suas excentricidades, obsessões, contradições e dilemas de aparência e identidade.
E então surge a perspectiva dos gatos observando essa cena: por que os humanos agem de forma tão estranha e ao mesmo tempo acham que controlam tudo? Os humanos acreditam que possuem os animais de estimação, enquanto os gatos parecem observar o absurdo do comportamento humano do alto de sua indiferença.
Tudo isso reforça o humor do conceito: somos imperfeitos, contraditórios e, no fim das contas, apenas humanos (“hoomans”).
- Nota: 10/10
8. GHOST iN TOKYO
Uma das faixas mais reflexivas do álbum. GHOST iN TOKYO retrata a alienação e o isolamento urbano no contexto da metrópole japonesa.
A música aborda a sensação de transitar por uma cidade grande, cercada de estímulos, mas carregando um profundo sentimento de solidão individual. O narrador tenta adotar personas para se encaixar e sobreviver à rotina, mas sente que sua verdadeira identidade acaba ficando opaca.
O “Ghost”:
O “fantasma” não é alguém literalmente morto, mas a metáfora para quem existe fisicamente sem se sentir plenamente presente ou conectado com quem está ao redor.
No entanto, a faixa não se encerra em desespero: há uma busca por libertação ao deixar para trás as máscaras sociais e aceitar a própria realidade.
- Nota: 10/10
9. ZiON feat. Masato from coldrain
Aqui o disco assume a postura de um hino de resistência. A letra é construída sobre superar momentos difíceis, a poeira, as quedas e os obstáculos do percurso.
A ideia central da faixa é direta: cair não significa o fim. Cair é apenas a etapa que antecede o ato de se levantar novamente.
Zion:
O termo “Zion” carrega forte bagagem cultural e simbólica associada a um destino ou lugar de refúgio. Na música, funciona como uma meta simbólica , o ponto de chegada e união para quem atravessou as dificuldades.
A participação de Masato (coldrain) cria um encontro histórico entre duas das vozes mais marcantes do rock pesado japonês, resultando em uma faixa potente e feita para arenas.
- Nota: 9,5/10
10. BLACK SUBMARiNE
Em BLACK SUBMARiNE, o SiM aborda o esgotamento causado pelo excesso de informação e pela toxicidade do mundo contemporâneo.
A faixa trata do bombardeio diário de ruído, discussões e ansiedade que dominam o cotidiano moderno. O “submarino negro” surge como uma metáfora de proteção: um meio de submergir e se distanciar da tempestade que ocorre na superfície.
O narrador não busca reformar o mundo de forma ingênua, mas sim encontrar um momento de refúgio e preservação mental contra a saturação externa.
- Nota: 10/10
11. FREEZE ME UP
Em vez de se focar em batalhas externas, FREEZE ME UP volta a atenção para o conflito interno.
A música mistura inglês e japonês para expressar turbulência emocional, receios e sombras pessoais, trazendo a perspectiva de que muitas vezes os maiores obstáculos a serem enfrentados estão dentro de nós mesmos.
A ideia de congelar ou fazer uma pausa (“freeze”) surge como um anseio por desacelerar a mente, silenciar a ansiedade e encontrar um ponto de estabilidade e paz interior.
- Nota: 9,5/10
12. Sailing On
A faixa que fecha o álbum funciona como um encerramento emocional e reflexivo.
A letra fala sobre romper com expectativas alheias, aprender com as experiências acumuladas ao longo das décadas de trajetória da banda e continuar em frente. Há uma declaração direta de maturidade sobre deixar de lado a autoaversion do passado e passar a aceitar quem se é (“I used to hate myself / Now I embrace who I am”).
O navio e o trajeto:
A metáfora do navio enfrentando tempestades encaixa-se na história do SiM. O foco da navegação não é a busca por um tesouro material, mas sim a jornada: os novos caminhos, as pessoas conhecidas pelo trajeto e as histórias escritas a cada passo.
Depois de todo o caos, humor e agressividade do disco, a faixa entrega uma mensagem de aceitação e continuidade.
- Nota: 10/10
O que o álbum realmente representa?
O conceito central declarado pela banda é a nostalgia do rock do fim dos anos 1990 e início dos 2000. MAH afirmou isso diretamente em entrevistas Ao mesmo tempo, as letras traçam uma visão do ser humano como alguém contraditório, engraçado, imperfeito e resiliente.
O elemento dos gatos
A presença dos gatos não é apenas pontual. Ela surge no conceito de “The Sniffing Cats Ska”, na faixa “HOOMAN AFTER ALL” e na identidade visual da era (incluindo a capa e ações promocionais da Pony Canyon chamadas de “Neko-ban” / edição dos gatos). A figura felina é usada para satirizar e observar a espécie humana com distanciamento bem-humorado.
HOOMAN AFTER ALL é provavelmente um dos álbuns mais conscientemente caóticos da carreira do SiM. E o caos não é um defeito. É o conceito. Isso não deveria funcionar. Mas funciona porque essa mistura é justamente a essência do SiM.
E o título resume tudo: HOOMAN AFTER ALL
No final, depois de toda a raiva, toda a violência, toda a nostalgia, toda a ironia, toda a tecnologia, todos os gatos e todo o caos…
continuamos sendo humanos. E talvez essa seja a parte mais bonita do disco: não tentar transformar o ser humano em algo perfeito. Só reconhecer que somos estranhos, contraditórios e imperfeitos, e continuar navegando mesmo assim.

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