BLACK TORCH: quando ninjas, mononoke e um gato transformam o sobrenatural em batalha

Há animes que chegam fazendo barulho antes mesmo de estrear. Grandes franquias, adaptações de mangás extremamente populares e continuações aguardadas costumam ocupar boa parte das conversas de cada temporada. E então existem aqueles títulos que aparecem quase silenciosamente, começam a conquistar quem lhes dá uma chance e, pouco a pouco, mostram que talvez merecessem mais atenção. BLACK TORCH pertence a esse segundo grupo.

Exibido desde julho de 2026, o anime acompanha Jiro Azuma, um adolescente descendente de uma longa linhagem de ninjas e treinado desde cedo nas antigas artes dos shinobi. Até aí, seria possível imaginar que estamos diante de mais uma história de ação sobrenatural. Mas Jiro possui uma habilidade bastante incomum: ele consegue conversar com animais.

É justamente essa característica que o coloca no caminho de Rago, um gato preto aparentemente comum que Jiro encontra ferido em uma floresta. O problema é que Rago está muito longe de ser apenas um gato. Ele é, na verdade, um poderoso mononoke conhecido como a “Black Star of Doom”, e seu poder desperta o interesse de outras criaturas sobrenaturais. A partir desse encontro, a vida de Jiro muda completamente.

O que parecia ser apenas mais um dia na vida de um jovem criado entre as tradições ninja transforma-se no início de uma guerra secreta envolvendo mononoke, agentes do governo, poderes sobrenaturais e uma organização encarregada de monitorar e eliminar essas criaturas.

E é justamente nessa mistura aparentemente improvável que BLACK TORCH encontra sua identidade.

Um shonen que conhece suas próprias raízes

À primeira vista, BLACK TORCH parece reunir praticamente todos os ingredientes conhecidos de um shonen de ação.

Existe o protagonista jovem e impulsivo. Existem poderes especiais. Há uma organização secreta, inimigos cada vez mais poderosos, companheiros de equipe, batalhas e uma ameaça sobrenatural que cresce conforme a história avança.

Mas a obra de Tsuyoshi Takaki não tenta esconder essas referências. Pelo contrário: ela parece abraçar conscientemente a tradição dos mangás de ação publicados pela Shueisha. O diretor Kei Umabiki descreveu a obra justamente como uma história que reúne amizade, personagens carismáticos, ação, humor, vilões marcantes, elementos da cultura japonesa, ninjas, mononoke e até uma ambientação militar com toques de ficção científica.

Essa combinação é importante porque impede que BLACK TORCH seja apenas uma história de “garoto com poderes enfrentando monstros”. Existe uma preocupação em criar um universo no qual diferentes referências convivam.

O resultado é uma obra que consegue alternar momentos de ação mais intensa com humor e momentos de convivência entre os personagens. E, no centro de tudo, está uma das relações mais curiosas da série.

Jiro e Rago: o ninja e o gato

Se existe um elemento capaz de resumir a personalidade de BLACK TORCH, provavelmente é a relação entre Jiro e Rago.

Jiro é um personagem aparentemente agressivo. Ele é impulsivo, gosta de lutar e pode passar facilmente a impressão de ser apenas mais um protagonista de shonen construído para entrar em combate.

Só que existe uma diferença importante. Jiro realmente gosta de animais.

Sua capacidade de conversar com eles não é apenas um poder colocado na história para facilitar a construção da trama. Ela está diretamente ligada à personalidade do personagem. Mesmo sendo alguém de temperamento explosivo, Jiro possui uma relação genuína de cuidado com os animais que encontra. O próprio material oficial descreve essa combinação entre comportamento briguento e uma personalidade essencialmente leal e cuidadosa. É justamente por isso que Rago funciona tão bem como contraponto. Ele pode parecer apenas um gato preto, mas carrega dentro de si uma força sobrenatural gigantesca.

A relação entre os dois também ajuda BLACK TORCH a escapar de uma estrutura excessivamente pesada. Afinal, no meio de ninjas, monstros e batalhas, existe um gato. E não qualquer gato.

Um gato que é, essencialmente, uma das criaturas mais perigosas daquele universo. Essa escolha dá à série um senso de humor que conversa diretamente com sua proposta de ação.

O sobrenatural japonês dentro de uma história de ação

Um dos aspectos mais interessantes de BLACK TORCH está justamente no uso dos mononoke.

O termo possui uma longa presença no imaginário japonês e está relacionado a entidades sobrenaturais, espíritos e manifestações capazes de interferir no mundo humano. Em BLACK TORCH, esse conceito é transformado em parte fundamental da estrutura de ação da série. Os mononoke não estão ali apenas como monstros que aparecem para serem derrotados. Eles fazem parte da história e do conflito em torno de Rago.

Isso dá à obra uma conexão direta com elementos tradicionais da cultura japonesa enquanto permite que a série os transforme em algo compatível com a linguagem de um shonen contemporâneo.

E essa talvez seja uma das maiores forças de BLACK TORCH: ele consegue utilizar referências tradicionais sem parecer uma obra presa ao passado.

O ninja, o mononoke e o imaginário espiritual japonês são colocados lado a lado com organizações secretas, operações militares e uma estrutura de ação bastante moderna.

De onde veio BLACK TORCH?

Antes de ser anime, BLACK TORCH nasceu como mangá de Tsuyoshi Takaki, publicado pela Shueisha.

Takaki publicou seu primeiro one-shot, Freaks, na Jump SQ Crown em 2016 e, naquele mesmo ano, começou a trabalhar em BLACK TORCH na Jump SQ. Posteriormente, o autor também criou Heart Gear, publicado pela Shonen Jump+.

A trajetória do mangá é particularmente interessante porque BLACK TORCH não surgiu como uma das maiores franquias da indústria.

A adaptação para anime, portanto, também funciona como uma espécie de segunda oportunidade para a obra alcançar um público muito maior. E o próprio Takaki participou diretamente da produção da adaptação.

Segundo o autor, ele supervisionou configurações e storyboards e acompanhou o processo para que o anime respeitasse a história original enquanto fosse reconstruído de maneira adequada ao novo formato.

Essa participação é importante porque uma adaptação de mangá para anime não consiste simplesmente em colocar movimento nas páginas. É preciso descobrir como transformar desenhos estáticos em ritmo, movimento, voz, música, cor e atmosfera.

E BLACK TORCH parece ter sido pensado justamente a partir dessa transformação.

Quando o preto e branco ganha movimento

Um dos aspectos que chamam atenção na produção é justamente a preocupação em preservar a personalidade visual do mangá.

O diretor de fotografia Hijiri Yamamoto explicou que a equipe procurou transportar para o anime a atmosfera criada por Takaki, especialmente sua maneira de trabalhar emoções e efeitos monocromáticos.

A solução foi explorar uma estética baseada em preto, branco e cinza, adaptando a linguagem visual do mangá para aquilo que o anime poderia oferecer. Isso é particularmente interessante em uma obra chamada BLACK TORCH.

Existe uma identidade visual coerente entre o título, o universo sobrenatural e a estética utilizada na adaptação.

Ao mesmo tempo, o anime não abandona completamente as possibilidades oferecidas pela animação.

A produção conta com uma presença significativa de CG e ação híbrida. Segundo Hirotaka Naito, diretor de CG, BLACK TORCH possui mais elementos de ação e CG do que trabalhos anteriores do 100studio nesse formato. A produção envolveu equipes do estúdio em Tóquio, Osaka, Taiwan e Coreia do Sul, além da Infinity1.

É uma escolha que faz sentido para uma obra cuja principal força está justamente nas batalhas.

Ação sem esquecer os personagens

Um risco comum em shonens sobrenaturais é fazer com que a história se torne uma sequência de lutas cada vez maiores.

O inimigo aparece.

O protagonista perde.

Ele descobre um novo poder.

Ganha.

Surge um inimigo ainda mais forte.

E o ciclo recomeça.

BLACK TORCH possui elementos dessa estrutura, naturalmente, mas seu universo depende bastante da relação entre os integrantes do grupo. O próprio diretor destaca a amizade e o vínculo entre Jiro e seus companheiros como um dos elementos centrais da obra. Isso é importante porque faz com que as batalhas tenham algum peso além da simples demonstração de poder.

Quando os personagens funcionam individualmente, o espectador passa a se importar com o que acontece com eles durante os confrontos. E é aí que um shonen deixa de ser apenas uma coleção de boas cenas de ação e começa a construir uma identidade própria.

A música também entendeu a proposta

Para quem acompanha o Shinkansen Otaku, existe ainda um detalhe particularmente interessante.

A abertura de BLACK TORCH é “FREEZE ME UP”, do SiM. E a escolha combina muito com a série.

A banda explicou que enxergou o mangá como um universo próprio e buscou transformar sua interpretação desse universo em música e letra. A música funciona justamente porque não tenta suavizar BLACK TORCH.

Ela chega com energia, peso e atitude. E isso estabelece rapidamente o clima da série.

Para quem acompanhou nossa análise de Hoooman After All, do SiM, a conexão fica ainda mais interessante: a banda aparece novamente em um projeto que dialoga diretamente com a estética de ação japonesa contemporânea.

Já o encerramento, “Groooovy”, ficou por conta do I Don’t Like Mondays.

E existe uma intenção diferente aqui. Enquanto a abertura representa a energia da obra, a banda explicou que o encerramento procura mostrar justamente os momentos de tranquilidade existentes entre as batalhas, quando Jiro e os demais personagens podem simplesmente viver. É uma diferença pequena, mas inteligente. A abertura representa o conflito.

O encerramento representa aquilo que os personagens estão tentando proteger.

BLACK TORCH chegou tarde demais?

Talvez uma das questões mais interessantes para discutir neste momento seja justamente essa.

BLACK TORCH estreou em 4 de julho de 2026 e vem sendo exibido semanalmente desde então. A transmissão japonesa acontece aos sábados, enquanto a série também está disponível internacionalmente em plataformas de streaming, incluindo a Crunchyroll.

Ou seja: não estamos mais diante de uma promessa.

A primeira temporada já teve tempo suficiente para mostrar o que pretende ser.

E talvez esse seja o melhor momento para descobrir a obra.

Não porque BLACK TORCH seja necessariamente o anime mais revolucionário de 2026.

Mas porque ele entende muito bem aquilo que pretende fazer. É um shonen de ação sobrenatural. Tem ninjas. Tem monstros.

Tem humor. Tem amizade. Tem batalhas. Tem um gato absurdamente poderoso. E consegue reunir tudo isso sem esconder suas influências.

Vale a pena assistir BLACK TORCH?

Sim, especialmente para quem sente falta de um shonen que não precise reinventar completamente a fórmula para ser divertido.

BLACK TORCH não precisa convencer o espectador de que inventou algo que nunca existiu.

Sua força está justamente em pegar elementos conhecidos e combiná-los de uma maneira que funciona.

Jiro é um protagonista fácil de acompanhar. Rago adiciona personalidade e humor à história. O conceito dos mononoke permite explorar elementos do folclore japonês. A presença dos ninjas estabelece uma identidade visual própria. E a estrutura de organização secreta cria espaço para ampliar o universo conforme a história avança.

Existe também uma sensação agradável de que a obra sabe que está fazendo um shonen.

Ela não tem vergonha de ser exagerada. Não tem vergonha de colocar personagens extremamente poderosos. Não tem vergonha do humor. E definitivamente não tem vergonha de colocar um gato no centro de uma guerra sobrenatural.

Talvez seja justamente isso que faça BLACK TORCH funcionar.

Em uma temporada cheia de títulos disputando atenção, nem sempre o anime que merece ser descoberto é aquele que chega acompanhado do maior número de expectativas. Às vezes, é aquele que aparece discretamente, apresenta sua proposta e simplesmente começa a fazer aquilo que sabe fazer. BLACK TORCH é esse tipo de anime.

Uma história sobre ninjas e criaturas sobrenaturais que encontra espaço para falar de amizade, lealdade, família e responsabilidade sem abandonar aquilo que o público procura em um bom shonen: personagens carismáticos, humor e, claro, boas batalhas.

E se existe uma imagem capaz de resumir tudo isso, provavelmente é a de Jiro ao lado de Rago. Um jovem ninja. Um gato que está longe de ser um gato comum. E uma guerra sobrenatural prestes a ficar muito maior.

Ficha técnica

BLACK TORCH
Obra original: Tsuyoshi Takaki
Direção: Kei Umabiki
Roteiro e composição de série: Gigaemon Ichikawa
Design de personagens: Gou Suzuki
Direção de CG: Hirotaka Naito
Direção de fotografia: Hijiri Yamamoto
Música: Yutaka Yamada
Estúdio: 100studio
Jiro Azuma: Ryota Suzuki
Rago: Yoji Ueda
Ichika Kishimojin: Sayaka Sembongi
Abertura: “FREEZE ME UP” — SiM
Encerramento: “Groooovy” — I Don’t Like Mondays.

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