My Hair is Bad — cats: quando crescer não significa deixar de sentir

Existem bandas que passam a carreira tentando se reinventar. Outras chegam a determinado momento e percebem que talvez a maior reinvenção possível seja olhar novamente para aquilo que sempre esteve ali. É nesse ponto que cats, sétimo álbum de estúdio do My Hair is Bad, se torna especialmente interessante.

Lançado em 9 de setembro de 2026, o disco chega cerca de dois anos depois de ghosts e reúne 13 faixas. O My Hair is Bad completa, em 2026, dez anos desde sua estreia major, e essa passagem do tempo inevitavelmente aparece na maneira como o grupo olha para amor, memória, cotidiano e para aquilo que permanece depois que determinadas fases terminam.

Mas cats não é um álbum que parece interessado em transformar amadurecimento em uma grande declaração. Pelo contrário. Ele encontra suas maiores emoções justamente nas pequenas coisas. Um sofá azul, uma refeição acompanhada de lágrimas, um verão sem flores, uma máquina do tempo, uma borboleta, a chegada do outono, uma casa, o apego e, finalmente, a luta.

A escolha do título também chama atenção. cats é simples, estranho e até divertido. Nada nele anuncia imediatamente um álbum conceitual sobre a passagem do tempo. E talvez essa seja justamente a graça. Em entrevistas de divulgação, Tomomi Shiiki comentou sobre a vontade de recuperar uma determinada força e uma espécie de pureza que fazem parte da identidade do My Hair is Bad. A ideia de voltar a pensar no que torna a banda reconhecível aparece como uma das chaves para entender o trabalho.

E não existe maneira melhor de apresentar essa proposta do que começar com 「超やばい猫でごめんね」. O título poderia ser traduzido livremente como “Desculpe por ser um gato muito louco”, e imediatamente quebra qualquer expectativa de uma abertura solene. Depois de dez anos de carreira major, o My Hair is Bad poderia começar um álbum falando sobre legado, trajetória ou maturidade. Em vez disso, escolhe um gato. Existe humor nessa decisão, mas também existe algo muito coerente com a identidade da banda: crescer não significa necessariamente abandonar a espontaneidade.

Logo depois, 「青いソファの上で」 leva a narrativa para dentro de casa. Um sofá azul é uma imagem extremamente comum, mas é justamente nessa banalidade que a música encontra sua força. O My Hair is Bad sempre teve facilidade para transformar situações cotidianas em experiências emocionais, e aqui a intimidade doméstica funciona quase como um espaço de memória. Não é necessário estar diante de uma grande paisagem para que alguma coisa importante aconteça. Às vezes, toda uma história cabe no lugar onde duas pessoas estiveram sentadas.

Essa lógica continua em 「パスタに涙」. “Lágrimas na massa” A vida não para porque alguém está sofrendo. A comida continua na mesa, a rotina continua acontecendo e, ainda assim, existe alguma coisa quebrada dentro de quem está ali. É uma das características mais interessantes da escrita : sentimentos enormes aparecem escondidos em situações aparentemente pequenas.

Em “summer without flowers”, essa sensação de ausência ganha outra dimensão. O verão normalmente carrega uma série de imagens muito específicas: calor, juventude, festivais, encontros, luz. Mas este é um verão sem flores. Existe alguma coisa faltando. O período continua existindo, mas já não possui exatamente a mesma beleza. E essa ideia de viver uma experiência que deveria ser feliz enquanto se percebe a ausência de alguém ou de alguma coisa atravessa boa parte do álbum.

「ダイヤモンド」 acrescenta outra imagem poderosa. O diamante é associado àquilo que possui valor, resistência e permanência, mas também é algo formado sob pressão. Dentro de um disco feito por uma banda que atravessou dez anos de carreira major, essa metáfora ganha um peso inevitável. O tempo não produz apenas desgaste. Ele também pode produzir aquilo que se torna mais resistente.

É então que 「飛んでけ!タイムマシン!」 coloca o passado diretamente no centro da conversa. A máquina do tempo poderia representar o desejo de voltar, mas o título não diz simplesmente “quero voltar”. Existe um comando: “vá embora”. É uma relação muito mais complicada com a memória. Existem momentos que queremos reviver, pessoas que gostaríamos de reencontrar e experiências que preferíamos apagar. Talvez amadurecer também seja aprender que não precisamos voltar para tudo aquilo que um dia fomos.

A delicadeza aparece em 「蝶々に触れて」, cuja imagem da borboleta funciona perfeitamente dentro dessa discussão. A borboleta representa transformação, mas também fragilidade. É bonita justamente porque não pode ser controlada completamente. Tentar segurá-la com força demais pode destruí-la. A metáfora pode ser transportada para relacionamentos, memórias e até para as próprias fases da vida: algumas coisas precisam ser tocadas sem serem possuídas.

“hell see.” surge como uma mudança de atmosfera, mantendo essa característica do álbum de não transformar todas as emoções em explicações óbvias. A faixa parece trabalhar justamente com fragmentos, pensamentos incompletos e sensações que não precisam necessariamente ser organizadas para serem compreendidas. cats não é um álbum que entrega todas as respostas. Ele permite que algumas imagens simplesmente permaneçam.

E então chega 「秋めき」, quando o outono começa a aparecer. Não é necessariamente o inverno. É o momento em que percebemos que alguma coisa está mudando. O ar fica diferente, a paisagem começa a se transformar e percebemos que determinada estação está chegando ao fim. É uma metáfora bastante apropriada para um álbum preocupado com a passagem do tempo, porque amadurecer também acontece assim: raramente existe um momento exato em que deixamos de ser quem éramos. Normalmente apenas percebemos, algum tempo depois, que o clima mudou.

Essa percepção encontra uma resposta em 「ここで暮らしてるよ」, música escrita originalmente para a série Tantei-san Ryukku Aitemasu yo Depois de tantas referências ao passado e à transformação, o título apresenta uma afirmação extremamente simples: “eu estou vivendo aqui”. Não estou mais naquele momento anterior. Não estou no futuro. Estou aqui. É quase como se o álbum, depois de olhar para tantas lembranças, precisasse finalmente voltar ao presente.

E o disco ainda consegue voltar a sorrir em 「Maybeうちら無敵ぢゃん」. O título, com sua linguagem informal e descontraída, parece recuperar uma energia mais jovem. “Talvez nós sejamos invencíveis.” A frase é bonita justamente porque sabemos que não somos. Todos sabemos que alguma coisa pode dar errado, que pessoas vão embora e que determinadas fases acabam. Ainda assim, existe um momento em que duas pessoas conseguem olhar uma para a outra e acreditar que podem enfrentar qualquer coisa. cats não precisa escolher entre maturidade e juventude. Ele entende que as duas podem existir ao mesmo tempo.

Essa contradição chega ao seu ponto mais interessante em 「愛着」. A palavra japonesa pode carregar sentidos como apego, vínculo e afeto construído ao longo do tempo. E talvez seja uma das palavras que melhor resumem o álbum. O apego não nasce necessariamente de grandes acontecimentos. Ele nasce da repetição. De voltar ao mesmo lugar. De ouvir a mesma música. De conviver com alguém. De construir uma vida. De olhar para alguma coisa depois de anos e perceber que ela passou a fazer parte de você. A própria presença dessa faixa em cats reforça a importância que o tempo tem para o disco.

Então chegamos à última faixa: 「闘いは美しい」, “A luta é bonita”.

É um encerramento quase definitivo para tudo aquilo que o álbum construiu. Depois dos gatos, dos objetos cotidianos, das lágrimas, do verão, da máquina do tempo, das estações e do apego, sobra a ideia de continuar lutando. Não necessariamente uma grande batalha, mas as pequenas disputas que fazem parte da existência: continuar amando, continuar criando, continuar tentando, continuar vivendo mesmo quando as coisas não saem como imaginávamos.

É justamente por isso que cats funciona tão bem como retrato de uma banda que chega a dez anos de carreira major. O álbum não parece interessado em dizer que o My Hair is Bad se tornou uma banda completamente diferente. Pelo contrário: parece interessado em descobrir o que acontece quando a mesma banda atravessa uma década e começa a enxergar as próprias emoções de outra maneira.

O resultado é um disco cheio de contradições. É engraçado e melancólico. É jovem e adulto. É cotidiano e profundamente emocional. Olha para trás, mas não parece querer viver no passado. Fala sobre mudanças sem abandonar aquilo que sempre fez parte da identidade do grupo.

Até o photobook que acompanha a edição limitada, reunindo dez anos da trajetória major da banda, reforça essa ideia de memória e passagem do tempo. É como se o material visual registrasse aquilo que aconteceu enquanto o álbum perguntasse o que fazer com todas essas lembranças agora.

Pessoas que cresceram, mudaram de cidade, terminaram relacionamentos, começaram outros, perderam algumas coisas, ganharam outras e continuaram carregando pedaços de versões antigas de si mesmas.

Porque crescer não significa deixar de sentir. Significa sentir sabendo que algumas coisas não vão voltar.

E talvez seja justamente por isso que ainda continuamos cantando sobre elas.

My Hair is Bad não parece querer provar que amadureceu em cats. Parece apenas querer mostrar o que existe dentro de alguém que amadureceu sem deixar de ser quem era.

categories
Música|Reviews

No responses yet

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *