Ryokuoushoku Shakai : Atamago: quando pensamentos ganham vida em forma de música

Para quem acompanha a música japonesa contemporânea, o nome Ryokuoushoku Shakai já não precisa de muita apresentação. Para quem ainda não conhece a banda, porém, Atamago é uma ótima oportunidade para descobrir por que o grupo se tornou um dos nomes mais interessantes do pop japonês dos últimos anos.

Formado em 2012 na província de Aichi, o Ryokuoushoku Shakai — frequentemente chamado pelos fãs de Ryokushaka — é um quarteto formado por Haruko Nagaya (vocais e guitarra), Issei Kobayashi (guitarra), peppe (teclados) e Shingo Anami (baixo). Nagaya, Kobayashi e peppe eram colegas de escola, enquanto Anami é amigo de infância de Kobayashi. Desde o começo, uma das características mais marcantes do grupo está no fato de que todos os integrantes participam do processo de composição, algo que ajuda a explicar a variedade de estilos encontrada em sua discografia.

Essa diversidade acabou se transformando em uma das marcas do Ryokuoushoku Shakai. A banda consegue transitar pelo pop, rock, elementos eletrônicos e arranjos mais sofisticados sem perder uma característica fundamental: a capacidade de construir melodias imediatamente acessíveis.

Foi assim que músicas como “Mela!”, “Shout Baby”, “Character”, “Summer Time Cinderella” e “Hana ni Natte” ajudaram a ampliar consideravelmente o alcance do grupo. “Mela!”, lançada em 2020, ultrapassou 500 milhões de reproduções em streaming, enquanto “Hana ni Natte”, de 2023, passou dos 300 milhões. A banda também realizou seu primeiro show no Nippon Budokan em 2022, turnês de arena entre 2023 e 2024 e sua primeira turnê asiática em 2025.

É justamente depois dessa trajetória de crescimento que chega Atamago, lançado em 9 de setembro de 2026 pela Epic Records Japan. O disco é o sexto álbum da carreira do grupo e reúne 12 músicas. E o título talvez seja a melhor porta de entrada para entender o álbum.

“Atamago” é uma palavra criada a partir de atama (頭), “cabeça”, e tamago (たまご), “ovo”. A ideia brinca com aquilo que nasce dentro da cabeça, pensamentos, ideias, sentimentos e, principalmente, músicas, antes de ganhar existência própria.

É um conceito simples, mas bastante apropriado para uma banda que já possui mais de uma década de carreira.

Porque Atamago não soa como um álbum preocupado apenas em demonstrar o quanto o Ryokuoushoku Shakai cresceu. Ele parece muito mais interessado em olhar para o processo de criação e para aquilo que acontece depois que uma ideia deixa de pertencer exclusivamente ao artista.

Uma música nasce na cabeça de alguém. Depois vira gravação. Em seguida é lançada. E, a partir daquele momento, passa a fazer parte da vida de outras pessoas. Essa ideia atravessa o álbum.

A abertura, “誰かの国” (Dareka no Kuni), já coloca o ouvinte diante de uma reflexão sobre identidade e perspectiva. A música parte da percepção de que cada pessoa possui seu próprio mundo, seu próprio “país”, suas próprias experiências. Aquela sensação de ser o centro absoluto da própria história começa a desaparecer quando percebemos que todas as outras pessoas também carregam universos particulares.

É uma escolha bastante significativa para iniciar o disco. Antes de falar sobre amor, futuro ou sonhos, o Ryokuoushoku Shakai começa falando sobre olhar para fora de si.

Na sequência aparece “TABOO”, uma faixa que leva essa discussão para outro território. Aqui, a banda brinca com a ideia de regras, limites e aquilo que deveria ou não deveria acontecer. O contraste entre racionalidade e desejo aparece de maneira especialmente interessante, como se a lógica pudesse determinar todos os caminhos possíveis, até o momento em que os sentimentos simplesmente se recusam a obedecer.

E essa é uma característica recorrente de Atamago: o álbum não trata a racionalidade como inimiga, mas também não acredita que ela seja suficiente.

“My Answer” aprofunda justamente essa questão. A música, conhecida por ter sido escolhida como tema da série televisiva Emergency Interrogation Room, coloca o amor e a escolha pessoal no centro da narrativa. O título já sugere a pergunta que atravessa a música: qual é a minha resposta?

A resposta, porém, não surge necessariamente de uma conclusão racional. Existe uma escolha que precisa ser feita mesmo quando ela envolve dúvidas e consequências. E, dentro da sequência do álbum, a faixa funciona quase como uma continuação natural de “TABOO”: se existem regras dizendo o que seria correto fazer, o que acontece quando aquilo que sentimos aponta para outra direção?

Depois vem “illusion”, que introduz uma atmosfera mais instável. Se até então o álbum estava questionando o mundo exterior, agora começa a questionar a própria percepção. O que vemos é realmente aquilo que pensamos estar vendo? O que sentimos corresponde necessariamente à realidade?

Essa sensação de incerteza prepara o caminho para “うたまご” (Utamago), uma das faixas mais interessantes para compreender o conceito geral do disco. O jogo de palavras com tamago, “ovo”, aproxima diretamente a música da ideia central de Atamago: aquilo que é criado, protegido e eventualmente colocado no mundo.

Existe aqui uma relação forte com memória, juventude e experiências acumuladas. A música olha para aquilo que vivemos e para como essas experiências podem permanecer conosco mesmo depois que determinada fase da vida termina.

É quase como se o Ryokuoushoku Shakai estivesse dizendo que as músicas também são uma forma de memória.

E talvez seja justamente aí que Atamago comece a ficar mais pessoal.

“章” (Shō), que pode ser traduzida como “capítulo”, trabalha com a ideia de trajetória e passagem do tempo. A vida aparece como uma história ainda em construção, na qual nem tudo foi decidido e nem todas as páginas estão preenchidas.

É uma imagem particularmente adequada para uma banda que chegou ao sexto álbum e já possui uma trajetória bastante consolidada, mas que ainda demonstra interesse em experimentar novas possibilidades.

Em vez de tratar o passado como algo definitivo, “章” parece enxergá-lo como parte de uma história que continua sendo escrita.

E essa ideia encontra um contraponto bastante humano em “分かりにくい” (Wakarinikui).

A faixa aborda a dificuldade de compreender e expressar sentimentos. Nem sempre conseguimos dizer aquilo que realmente queremos dizer. Nem sempre percebemos o sofrimento de outra pessoa. E, muitas vezes, nem sequer conseguimos entender completamente aquilo que está acontecendo dentro de nós.

É uma música sobre comunicação, mas também sobre suas limitações. E esse talvez seja um dos pontos em que o álbum mais se aproxima do cotidiano. Porque Atamago não está falando apenas de grandes decisões ou acontecimentos extraordinários. Ele também fala sobre aquela experiência muito comum de querer ser compreendido e, ao mesmo tempo, não saber como se explicar.

Então chega “アルゴリズム” (Algorithm), e o disco entra em um território ainda mais contemporâneo.

A própria escolha da palavra “algoritmo” já traz para a música toda uma associação com tecnologia, redes sociais, padrões de comportamento e ciclos que se repetem. A sensação é de estar preso em uma rotina que continua funcionando mesmo quando sabemos que ela não está nos levando para onde gostaríamos.

É uma das ideias mais interessantes do álbum porque conversa diretamente com o modo como vivemos atualmente.

Somos constantemente estimulados a produzir, consumir, comparar, responder e continuar.

E, quando finalmente paramos, podemos sentir culpa por não estar fazendo alguma coisa.

O algoritmo deixa de ser apenas uma tecnologia externa e passa a representar um padrão mental.

A resposta para esse ciclo aparece em “レジスダンス” (Resisdance). O próprio título mistura “resistência” e “dance”, e a música transforma a ideia de resistir em movimento. Não é uma resistência necessariamente grandiosa.

É a resistência cotidiana de continuar existindo, continuar criando e continuar encontrando alguma alegria mesmo quando o mundo parece excessivamente pesado.

Esse aspecto coletivo também é importante. Se “Algorithm” apresenta o indivíduo preso em seus próprios ciclos, “Resisdance” sugere a possibilidade de romper esse isolamento através da conexão com outras pessoas.

A partir daí, o álbum começa a ganhar uma sensação maior de movimento.

“風に乗る” (Kaze ni Noru), tema do filme de animação Paris ni Saku Étoile, traz justamente a imagem de seguir adiante, deixando-se levar pelo vento.

Mas não se trata simplesmente de abandonar tudo e seguir sem pensar. Existe uma diferença importante entre fugir e avançar.

A personagem da música parece aceitar que não possui todas as respostas, mas também entende que permanecer parada não resolverá suas dúvidas.

É um sentimento que conversa diretamente com “つづく” (Tsuzuku).

“Continua.”

A palavra é simples, mas funciona quase como a conclusão filosófica do álbum.

Depois de tantas dúvidas, não existe uma resposta definitiva. Existe continuidade. A vida continua. As relações continuam.

Os erros continuam fazendo parte da história. As músicas continuam existindo.

E a própria banda continua criando.

Por isso, quando chegamos a “晴々” (Harebare), a última faixa, o encerramento não parece uma resolução absoluta. É mais uma abertura.

O título remete a uma sensação de céu aberto, de clareza depois de um período difícil. A música foi associada à transmissão do Campeonato Asiático de Vôlei de 2026 e carrega justamente essa atmosfera de força, movimento e superação.

É uma maneira bastante apropriada de terminar o álbum.

Porque Atamago não termina dizendo que todos os problemas foram resolvidos. Ele termina dizendo que é possível continuar mesmo sem ter resolvido tudo.

Esse talvez seja o maior mérito do sexto álbum do Ryokuoushoku Shakai.

A banda poderia facilmente ter usado este momento da carreira para simplesmente reunir seus grandes singles e apresentar um álbum comemorativo. Em vez disso, Atamago funciona como um retrato de um grupo que já conquistou um espaço importante na música japonesa, mas ainda está interessado em questionar a própria maneira de criar.

O resultado é um álbum pop, acessível e cheio de melodias marcantes, mas que ganha força justamente quando o ouvinte presta atenção às letras e às relações entre as músicas.

“Dareka no Kuni” olha para o mundo dos outros. “TABOO” questiona limites. “My Answer” fala sobre escolhas. “Utamago” olha para aquilo que criamos. “Shō” transforma a vida em capítulos. “Wakarinikui” admite que nem sempre conseguimos nos explicar. “Algorithm” mostra os ciclos que nos prendem. “Resisdance” responde com resistência. “Kaze ni Noru” escolhe seguir. “Tsuzuku” lembra que a história continua. E “Harebare” abre o céu.

É justamente essa progressão que faz Atamago funcionar melhor como álbum do que como uma simples coleção de singles.

No fim, o conceito do “ovo” se torna ainda mais interessante. As músicas nasceram dentro da cabeça dos integrantes do Ryokuoushoku Shakai. Agora elas estão fora deles.

Pertencem aos fãs, às pessoas que vão ouvi-las pela primeira vez, às histórias que serão associadas a cada faixa e às memórias que ainda nem existem. Talvez seja essa a verdadeira ideia por trás de Atamago.

Toda música nasce como uma ideia. Mas só ganha vida de verdade quando encontra alguém disposto a ouvi-la.

E, em seu sexto álbum, o Ryokuoushoku Shakai mostra que ainda possui muitas ideias prontas para quebrar a casca.

Atamago é um álbum sobre criação, identidade, escolhas e continuidade. Não tenta apresentar uma banda reinventada do zero, mas algo talvez mais interessante: uma banda madura o suficiente para conhecer sua própria identidade e inquieta o bastante para continuar procurando novas formas de expressá-la.

Ryokuoushoku Shakai não está apenas lançando seu sexto álbum. Está mostrando o que acontece quando aquilo que nasceu dentro da cabeça de quatro músicos finalmente ganha o mundo.

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