
Para falar de Made of Glass, é preciso primeiro falar de milet — e talvez seja difícil apresentar uma artista como ela sem falar daquilo que sua voz provoca.
milet é uma cantora e compositora japonesa que iniciou sua carreira em 2018 e ganhou projeção nacional em 2019, com o EP inside you. No ano seguinte, lançou seu primeiro álbum de estúdio, eyes, que alcançou o primeiro lugar nas paradas de álbuns da Oricon e da Billboard Japan. Mas reduzir milet ao sucesso de seus discos seria pouco.
Ao longo dos anos, sua voz passou a ocupar um lugar muito particular na música japonesa: entre o íntimo e o cinematográfico. Ela se tornou conhecida também por transformar músicas para animes, filmes e dramas em experiências que parecem ultrapassar a própria obra para a qual foram compostas.
Foi sua voz que acompanhou, por exemplo, “Anytime Anywhere”, encerramento de Frieren: Beyond Journey’s End, uma música que se tornou especialmente marcante por traduzir em poucos minutos temas como distância, memória, despedida e a permanência das pessoas que amamos. Em 2026, ela voltou ao universo de Frieren com “The Story of Us”, encerramento da segunda temporada.
E talvez seja justamente aí que esteja o encanto de milet. Ela não parece cantar apenas sobre sentimentos. Ela canta como se estivesse dentro deles.
Há algo de vulnerável e, ao mesmo tempo, poderoso em sua interpretação. Sua voz consegue soar enorme sem perder a intimidade , como se uma mesma pessoa pudesse estar diante de uma multidão e, ainda assim, cantar diretamente para alguém que está ouvindo sozinho no quarto.
Sua música frequentemente passeia por sentimentos que não são fáceis de organizar: saudade, amor, medo, solidão, esperança, despedidas e aquela estranha vontade de continuar mesmo quando alguma parte de nós ainda gostaria de ficar.
E depois de eyes, visions e 5am, milet chega agora a uma nova etapa de sua trajetória com Made of Glass, seu quarto álbum de estúdio, previsto para 19 de agosto de 2026.
E é justamente aqui que a história fica ainda mais interessante.
Porque milet escolheu chamar esse novo capítulo de “Made of Glass” — feita de vidro.
E, segundo a própria artista, esse vidro representa algo que pode ser transparente e luminoso, mas também afiado, delicado e quebrável. Ela fala sobre querer continuar refletindo a luz mesmo sendo frágil, e sobre transformar até suas rachaduras e feridas em música.
É a partir dessa ideia que Made of Glass começa a fazer sentido.
Não como um álbum sobre alguém que deixou de quebrar.
Mas sobre alguém que descobriu que até aquilo que quebra pode continuar refletindo luz.
Existe algo particularmente interessante na trajetória de milet: ela nunca precisou escolher entre parecer forte e admitir que é frágil.
Desde inside you, sua voz parece habitar justamente esse lugar contraditório. Há peso, sombra, uma espécie de melancolia quase física, mas também existe uma luminosidade muito particular em suas músicas. milet canta como quem conhece a noite ,mas não necessariamente como quem deseja permanecer nela.
E talvez seja por isso que Made of Glass seja um título tão preciso.
Vidro é resistente, mas pode quebrar. É transparente, mas pode refletir uma imagem que não corresponde exatamente ao que existe do outro lado. Pode ser delicado e, ao mesmo tempo, cortante. E essa dualidade parece atravessar o álbum.
Depois de aproximadamente três anos desde 5am, milet retorna com um trabalho de 16 faixas, reunindo músicas já conhecidas e oito gravações inéditas. Entre elas estão Hurricane, Golden Ember, The Story of Us, Sunny, I still, Wings, hanataba, Bluer, 海原, Anytime Anywhere, hanare banare, Happily, Higher, Masterpiece, Christmas Eve e Perfect blue.
E o mais interessante é observar como essas músicas parecem conversar entre si.
O álbum começa como uma tempestade
“Hurricane” abre o disco.
E eu acho essa escolha extremamente simbólica.
Um furacão não é apenas destruição. É movimento. É aquilo que chega sem pedir licença e reorganiza tudo ao redor.
Depois de um intervalo tão grande entre álbuns, começar Made of Glass com uma faixa chamada Hurricane parece quase uma declaração:eu voltei, mas não sou exatamente a mesma pessoa que saiu daqui.
E então vem “Golden Ember”.
Se Hurricane é a força que desorganiza, Golden Ember parece representar aquilo que permanece depois do incêndio: a brasa.
Não é mais a chama gigantesca. É o que continua quente quando aparentemente tudo acabou. Essa combinação já estabelece uma tensão muito bonita entre destruição e permanência.
“The Story of Us”: talvez o coração emocional do álbum
E então chegamos a “The Story of Us”, que ocupa a terceira posição.
A música é tema de encerramento da segunda temporada de Frieren: Beyond Journey’s End e, dentro do contexto do álbum, ganha uma dimensão ainda maior. Porque The Story of Us não parece falar apenas sobre uma história de amor. Ela fala sobre aquilo que duas pessoas deixam uma na outra depois que o tempo passa. E isso conversa perfeitamente com a própria carreira da milet.
Há algo muito bonito em perceber que, depois de tantos anos, tantas trilhas sonoras, tantos personagens e histórias que passaram pela voz dela, ela chega a um álbum que parece perguntar: “E qual é a nossa história?”
Artista e público. Passado e presente. A pessoa que milet era e a mulher que ela se tornou.
E então chega “Sunny”
Se The Story of Us olha para aquilo que permanece, “Sunny” olha para aquilo que começa.
A música foi lançada como abertura do anime Futsutsuka na Akujo de wa Gozaimasu: ~Hinamiyaku Chouso Torikae Den~ e entrou no álbum como uma das novidades.
E existe uma ironia deliciosa aqui: um álbum chamado Made of Glass contém uma música chamada Sunny.
Vidro precisa de luz para revelar sua beleza. Quando a luz bate, ele reflete, atravessa, distorce, cria cores.
Talvez Sunny seja justamente isso dentro do disco: a luz atravessando uma pessoa que continua sendo frágil.
Não é felicidade ingênua. É luminosidade depois de ter conhecido a escuridão.
“I still” e a permanência do que não conseguimos abandonar
Depois vem “I still”, tema do filme Shiranai Kanojo.
E poucas expressões são tão simples e devastadoras quanto: I still. Eu ainda. Ainda sinto. Ainda lembro. Ainda amo. Ainda dói. Ainda estou aqui.
A força dessa música está justamente no que não é dito. Porque algumas das nossas maiores histórias não terminam quando alguém vai embora. Elas continuam existindo dentro da gente. E isso combina demais com a estética emocional da milet: ela frequentemente não transforma a dor em espetáculo. Ela simplesmente permite que ela exista.
Wings”: liberdade sem esquecer o peso
“Wings” também entra nessa sequência. A música foi utilizada em uma campanha da Idemitsu Kosan.
E acho interessante colocá-la ao lado das outras. Porque wings significa asas. Mas asas não significam necessariamente escapar.
Às vezes significam aprender a carregar o próprio peso de uma maneira diferente.
É uma imagem recorrente na arte: querer voar quando, na verdade, o que desejamos é deixar de sentir que estamos presos.
E talvez esse seja um dos grandes temas de Made of Glass: não se tornar indestrutível, aprender a continuar mesmo sabendo que pode quebrar.
“hanataba”: flores para aquilo que não pode ser salvo
E então temos “hanataba”, uma das músicas mais emocionalmente poderosas da fase recente da milet e tema do drama Antihero.
Hanataba significa buquê. E existe algo profundamente japonês nessa imagem. Flores podem representar celebração.
Mas também despedida. Podem ser oferecidas a alguém que amamos. E também podem ser colocadas diante de uma ausência.
Um buquê é bonito justamente porque é temporário. As flores vão morrer. E ainda assim nós as oferecemos. Talvez seja uma das melhores metáforas para o álbum inteiro : Saber que algo é passageiro não torna aquilo menos digno de ser amado.
Bluer” e “海原”: o mar como espaço de transformação
Depois aparece “Bluer”, tema oficial do Kobe Suma Sea World, seguida por “海原” (Unabara).
E aqui o álbum parece começar a respirar.
Se as primeiras músicas trabalham com tempestade, memória e fragilidade, o mar surge como uma espécie de território intermediário. O mar nunca está parado. Ele parece infinito. Ele engole coisas. Devolve outras. Apaga pegadas. E continua existindo. É uma imagem perfeita para um álbum sobre transformação.
Anytime Anywhere”: talvez uma das maiores chaves do disco
E então chega “Anytime Anywhere”, uma das músicas mais importantes da carreira recente de milet e encerramento da primeira temporada de Frieren.
Essa música sempre carregou uma ideia muito forte de presença apesar da distância. A pessoa pode não estar mais ao nosso lado, mas aquilo que vivemos com ela continua existindo.
E colocá-la na décima posição é interessante. Não no começo. Não no final. No meio.
Como se o álbum dissesse: “antes de seguir em frente, você precisa aceitar que algumas pessoas continuam fazendo parte da sua história mesmo quando já não fazem parte da sua vida.” E isso é uma ideia extremamente Frieren, mas também extremamente humana.
E depois vêm as inéditas
É aqui que Made of Glass fica particularmente interessante.
Depois de músicas que o público já conhece, aparecem “hanare banare”, “Happily”, “Masterpiece”, “Christmas Eve” e “Perfect blue”, entre outras faixas novas.
E eu gosto muito da decisão de não fazer o álbum parecer simplesmente uma coletânea de singles.
Porque o desafio de um disco como esse é justamente transformar músicas que nasceram em contextos diferentes — anime, cinema, televisão, publicidade — em uma única narrativa. E Made of Glass parece tentar fazer exatamente isso.
Não contar uma história linear. Mas construir uma paisagem emocional.
O que mais me chama atenção em Made of Glass
A milet de inside you parecia cantar muito sobre estar perdida dentro de si mesma. A milet de 5am parecia observar a madrugada como um lugar onde sentimentos contraditórios podiam coexistir. E agora, em Made of Glass, existe a sensação de alguém que já atravessou algumas dessas noites.
Ela não parece estar dizendo: “Eu deixei de ser frágil.” Parece dizer: “Eu descobri que não preciso deixar de ser frágil para continuar.”
E isso é muito mais interessante. Porque existe uma obsessão cultural pela ideia de resiliência. Precisamos ser fortes. Precisamos superar. Precisamos seguir em frente. Precisamos transformar nossas cicatrizes em histórias bonitas.
Mas e se não? E se algumas cicatrizes continuarem doendo? E se algumas pessoas ainda fizerem falta? E se ainda houver medo?
E se a gente puder ser feita de vidro e, mesmo assim, continuar de pé?
É aí que o título do álbum se torna quase uma filosofia.
Minha leitura do álbum
Made of Glass parece ser menos sobre fragilidade do que sobre aceitação da fragilidade. É um álbum sobre continuar amando mesmo sabendo que o amor pode acabar. Continuar seguindo mesmo sabendo que podemos nos perder. Continuar criando mesmo depois de duvidar de nós mesmos. Continuar vivendo sabendo que tudo é temporário. E talvez seja exatamente por isso que a imagem do vidro seja tão bonita. Porque o vidro não é apenas algo que quebra. É algo que deixa a luz passar.
E talvez essa seja a grande diferença entre a milet de alguns anos atrás e a milet que chega agora. Ela não parece querer esconder as rachaduras. Ela parece querer ver o que acontece quando a luz atravessa elas.
Made of Glass ainda nem chegou oficialmente ,seu lançamento está marcado para 19 de agosto , mas a história que as faixas já apresentadas estão construindo promete ser um dos trabalhos mais interessantes da carreira dela.
E, se o álbum cumprir o que esse conceito promete, talvez não seja um disco sobre quebrar. Talvez seja sobre descobrir que: algumas coisas quebradas não precisam ser jogadas fora. Às vezes, basta colocá-las diante da luz. E observar o que elas refletem.

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