Orange — Ichigo Takano: quando o futuro escreve uma carta para quem ainda não sabe o quanto precisa ser salvo

Existem histórias que falam sobre viagem no tempo como uma aventura, usando o futuro como um grande quebra-cabeça, uma possibilidade de alterar acontecimentos, descobrir segredos ou impedir uma catástrofe. Orange, de Ichigo Takano, começa aparentemente por esse caminho. Uma carta enviada dez anos no futuro. Uma garota de dezesseis anos recebendo instruções da mulher que ela será. Um novo aluno chegando à escola. Pequenos acontecimentos que começam a se realizar exatamente como foram descritos. Mas, conforme a história avança, fica claro que Orange nunca foi realmente sobre viagem no tempo. É sobre arrependimento. Sobre aquelas pequenas decisões que parecem insignificantes quando estamos diante delas, mas que podem ganhar um peso gigantesco quando olhamos para trás. É sobre a culpa de pensar “eu poderia ter feito alguma coisa”. É sobre amizade, amor, amadurecimento e, principalmente, sobre a dificuldade de perceber que alguém que está sorrindo ao nosso lado pode estar atravessando uma batalha que não conseguimos enxergar.

Publicado originalmente em 2012, Orange acompanha Naho Takamiya, uma estudante que está começando o segundo ano do ensino médio quando recebe uma carta bastante peculiar. O remetente é ela mesma, dez anos mais velha. A princípio, a situação parece absurda, quase impossível de levar a sério. Afinal, como alguém poderia receber uma carta enviada pelo próprio futuro? Só que as primeiras linhas começam a descrever acontecimentos daquele mesmo dia, inclusive a chegada de um novo aluno transferido de Tóquio: Kakeru Naruse. Aos poucos, Naho percebe que aquela carta sabe coisas que ainda não aconteceram e, principalmente, que sua versão adulta está tentando impedir que determinados acontecimentos se repitam.

É aí que Orange apresenta uma de suas ideias mais bonitas e também mais dolorosas: a carta não existe simplesmente para contar a Naho o que vai acontecer. Ela existe para oferecer uma segunda chance. A Naho adulta olha para o passado carregando arrependimentos e tenta avisar a adolescente que ela foi sobre as escolhas que gostaria de ter feito de maneira diferente. O futuro, nesse caso, não aparece como um lugar distante e grandioso, mas como uma pessoa olhando para trás e pensando em tudo aquilo que poderia ter sido diferente.

Talvez seja justamente isso que torne a premissa tão fácil de compreender emocionalmente. Quem nunca desejou conversar com a própria versão mais jovem? Não necessariamente para impedir uma grande tragédia ou mudar completamente a própria vida, mas apenas para dizer algumas coisas que só aprendemos depois. Não tenha tanto medo. Fale o que você está sentindo. Não deixe essa pessoa ir embora. Preste mais atenção. Pergunte se está tudo bem. Não adie aquela conversa. Você vai se arrepender disso. Orange pega essa vontade tão humana de voltar no tempo e transforma em narrativa.

Só que, quando Kakeru entra na vida de Naho e de seus amigos, percebemos que aquela história é muito maior do que parecia inicialmente. Kakeru chega à escola como qualquer outro adolescente. Ele conversa, brinca, participa das atividades e, aos poucos, se torna parte daquele pequeno grupo formado por Naho, Suwa, Takako, Azusa e Hagita. Ele não parece alguém que carrega um peso tão grande dentro de si. E justamente por isso a história consegue ser tão angustiante.

Kakeru é um personagem construído em torno de uma tristeza que nem sempre é visível. Ele pode sorrir. Pode brincar. Pode passar um dia aparentemente normal. Pode se aproximar dos amigos e desenvolver sentimentos por Naho. Mas existe algo dentro dele que o leitor sabe que está acontecendo, mesmo quando os outros personagens não conseguem perceber completamente.

Orange entende uma coisa extremamente importante: sofrimento não possui necessariamente uma aparência. Nem sempre a pessoa que está mal vai anunciar que está mal. Nem sempre quem precisa de ajuda vai conseguir pedir. Às vezes, a pessoa que mais precisa que alguém pergunte “você está bem?” é justamente aquela que responde automaticamente que sim.

Essa percepção muda completamente a experiência de leitura. Como leitores, recebemos informações que os personagens ainda não possuem. Sabemos que existe alguma coisa errada. Sabemos que existe um futuro que precisa ser alterado. Sabemos que Naho está recebendo aquelas cartas por uma razão. E, a partir daí, cada pequena interação ganha um peso diferente. Uma conversa aparentemente banal pode se tornar importante. Uma decisão que normalmente passaria despercebida passa a carregar tensão. Um momento feliz pode ser acompanhado pela sensação de que existe algo que os personagens ainda não sabem.

E Orange é muito eficiente justamente porque não transforma essa situação em uma corrida contra o tempo convencional. Não existe um vilão tentando destruir o mundo. Não existe uma batalha final capaz de resolver tudo. O antagonista é muito mais abstrato: o arrependimento. É o “e se?”. É o “por que eu não fiz isso?”. É o “por que eu não perguntei?”. É o “eu achei que ele estava bem”. É o peso de olhar para uma situação depois que ela passou e perceber que talvez houvesse alguma coisa que poderia ter sido feita.

A história poderia facilmente cair em uma armadilha perigosa ao transformar Naho na responsável por “salvar” Kakeru. Afinal, as cartas deixam claro que a versão adulta dela gostaria que determinadas coisas fossem diferentes. Mas Orange é mais interessante justamente porque Naho não é uma heroína perfeita. Ela hesita, erra, sente medo, interpreta situações de maneira equivocada e muitas vezes não sabe o que fazer. Ela é uma adolescente tentando entender seus próprios sentimentos enquanto tenta compreender o sofrimento de outra pessoa. E isso é fundamental para que a história não transforme cuidado em uma espécie de superpoder.

Naho não consegue resolver tudo sozinha. Na verdade, Orange deixa cada vez mais claro que ninguém deveria carregar sozinho a responsabilidade pela vida de outra pessoa. O que começa como uma missão aparentemente individual vai se tornando uma responsabilidade coletiva. Os amigos de Kakeru e Naho começam a perceber que existe algo maior acontecendo e, pouco a pouco, o grupo se transforma em uma rede de apoio. A amizade passa a ter tanta importância quanto o romance.

E talvez seja esse um dos maiores méritos da obra. É muito fácil olhar para Orange e classificá-lo apenas como um romance adolescente. Naho gosta de Kakeru. Kakeru desenvolve sentimentos por Naho. Existe Suwa, existe o conflito amoroso, existem sentimentos não correspondidos, ciúmes, escolhas e inseguranças. Mas reduzir Orange a um triângulo amoroso seria perder boa parte do que a história realmente está tentando construir. O romance existe e é importante, mas o amor aparece de várias maneiras. Existe o amor romântico, mas também existe o amor entre amigos, o cuidado, a preocupação, o desejo de proteger alguém e até o amor que uma pessoa sente por uma versão de si mesma que ficou no passado.

Nesse sentido, Suwa se torna um personagem particularmente interessante. Ele poderia facilmente ter sido escrito apenas como o rival romântico de Kakeru, aquele personagem que existe para criar obstáculos para o casal principal. Mas Ichigo Takano dá a ele uma complexidade muito maior. Suwa observa, percebe coisas, entende sentimentos e também precisa lidar com os próprios desejos. Ele gosta de Naho, mas começa a compreender a importância de Kakeru para ela e para o grupo. Suas escolhas carregam uma melancolia muito própria porque ele também precisa aprender que amar alguém não significa necessariamente possuir essa pessoa.

Existe algo muito bonito na maneira como Orange trata a amizade entre os personagens. Eles não são importantes apenas porque estão juntos na mesma escola ou porque participam da vida uns dos outros. Eles se tornam importantes porque decidem permanecer. E, em uma história que fala tanto sobre perda, permanecer é uma palavra muito forte.

A amizade em Orange não é perfeita. Os personagens não possuem respostas para tudo. Eles não sabem exatamente o que dizer em todos os momentos. Às vezes falham. Às vezes chegam tarde. Às vezes não compreendem aquilo que está acontecendo. Mas continuam tentando. E talvez essa seja uma das mensagens mais humanas da obra: ajudar alguém nem sempre significa saber exatamente o que fazer. Às vezes significa simplesmente estar presente.

Essa ideia também se conecta diretamente com a maneira como o mangá aborda saúde mental. Orange lida com temas bastante pesados, incluindo depressão, sofrimento psicológico, culpa, perda e suicídio. Apesar de sua estética delicada e de sua ambientação escolar, não é uma leitura emocionalmente leve. A própria edição brasileira da JBC classifica a obra como indicada para maiores de 14 anos. A história exige do leitor certa disposição para entrar em temas dolorosos e, principalmente, para compreender que aquilo que está sendo discutido não é apenas um recurso para provocar lágrimas.

O sofrimento de Kakeru afeta não apenas ele. Ele reverbera nas pessoas ao seu redor. A culpa também passa a existir entre aqueles que ficaram. E Orange trabalha justamente com essa sensação de imaginar o que poderia ter sido feito. Mas existe uma diferença importante entre reconhecer que atitudes podem fazer diferença e acreditar que uma única pessoa é responsável por impedir o sofrimento de outra. O mangá, em seus melhores momentos, entende essa diferença. Naho não possui todas as ferramentas. Seus amigos também não. O que eles possuem é a disposição de tentar enxergar Kakeru e não deixá-lo completamente sozinho.

Essa é uma das partes mais dolorosas da história porque Orange sabe que as pessoas podem estar sofrendo sem que ninguém perceba. O mundo continua acontecendo. As aulas continuam. Os amigos continuam conversando. O céu continua bonito. As pessoas continuam rindo. E, enquanto tudo parece normal, alguém pode estar enfrentando uma batalha silenciosa.

Essa normalidade é uma das características mais bonitas da obra. Apesar de toda a premissa fantástica, Orange é profundamente cotidiano. Os personagens estudam, conversam, saem juntos, praticam esportes, comem, discutem, ficam com vergonha, sentem ciúmes e se apaixonam. São adolescentes vivendo aquela fase estranha da vida em que tudo parece enorme porque quase tudo está acontecendo pela primeira vez. É justamente essa simplicidade que faz com que os momentos mais dramáticos tenham tanto impacto.

Kakeru não é apresentado como alguém completamente separado do grupo. Ele pertence àquele espaço. Ele está ali. Ele ri com aquelas pessoas. Ele participa das brincadeiras. Ele se torna parte das memórias deles. E, justamente por isso, existe algo tão doloroso na possibilidade de perdê-lo.

Orange também utiliza muito bem o cotidiano para falar sobre tempo. Quando sabemos que o futuro pode ser diferente, passamos a observar cada instante com mais atenção. Uma ida à escola deixa de ser apenas uma ida à escola. Uma conversa deixa de ser apenas uma conversa. Um convite pode ter consequências. Uma decisão pequena pode adquirir um significado gigantesco.

E é aí que a viagem temporal deixa de ser apenas um elemento de ficção científica e passa a funcionar como metáfora. Orange não está realmente interessado em explicar cientificamente como alguém poderia enviar uma carta dez anos para o passado. O mecanismo existe para criar uma pergunta: se você pudesse avisar a si mesmo sobre os seus maiores arrependimentos, o que escreveria?

Essa pergunta atravessa toda a obra.

A Naho adulta escreve para a Naho adolescente porque sabe o que perdeu. Ela conhece uma versão da vida que aquela garota ainda não viveu. Ela sabe que determinadas escolhas terão consequências que a adolescente não consegue imaginar. E, mesmo assim, tudo que pode fazer é escrever.

Isso torna as cartas ainda mais bonitas. Uma carta é uma mensagem que atravessa o tempo, mas também é uma forma de dizer coisas que talvez não consigamos falar pessoalmente. É uma maneira de organizar sentimentos. É uma tentativa de fazer uma pessoa que ainda não entende alguma coisa enxergar aquilo que nós só compreendemos depois.

Existe uma melancolia muito grande nessa relação entre as duas Nahos. A adolescente ainda está descobrindo quem é. A adulta já sabe quem ela se tornou. Uma possui tempo pela frente. A outra possui experiência. E, mesmo separadas por uma década, elas são a mesma pessoa tentando cuidar uma da outra.

Isso faz Orange também ser uma história sobre amadurecimento. Porque crescer não significa necessariamente descobrir todas as respostas. Às vezes significa perceber quantas coisas ainda não sabemos. Significa entender que nossas decisões possuem consequências, mas também aceitar que não podemos prever tudo. Significa olhar para a pessoa que fomos e tentar perdoá-la por não saber aquilo que só aprendemos depois.

Essa talvez seja uma das ideias mais bonitas escondidas no mangá. A Naho adulta não está apenas tentando salvar Kakeru. Ela também está tentando fazer as pazes com a própria versão adolescente. Ela está dizendo, de certa forma, “eu sei que você não sabe o que fazer, mas eu preciso que você tente”.

E existe muita ternura nisso.

Porque todos nós temos alguma versão mais jovem de nós mesmos que gostaríamos de abraçar. Uma versão que tomou decisões sem conhecer as consequências. Uma versão que ficou em silêncio quando deveria ter falado. Uma versão que teve medo. Uma versão que perdeu oportunidades. Uma versão que simplesmente não sabia.

Orange entende que amadurecer também é olhar para trás e reconhecer que aquela pessoa fez o melhor que conseguiu com o conhecimento que tinha naquele momento.

O título também ganha uma força simbólica conforme a história avança. Orange remete ao pôr do sol, à luz quente, ao final de um dia e à passagem do tempo. O pôr do sol é bonito justamente porque não permanece. Ele anuncia que alguma coisa está terminando. E talvez exista uma conexão muito forte entre essa imagem e o coração da história. Orange fala sobre perceber a beleza de alguma coisa enquanto ainda existe tempo para apreciá-la.

Todo presente um dia se transforma em passado. Todo momento que parece banal hoje será, algum dia, uma memória. E a obra nos faz olhar para os seus personagens com essa consciência. Eles ainda não sabem quais momentos vão lembrar no futuro. Nós sabemos que eles estão construindo memórias que serão importantes.

Essa sensação é especialmente forte porque Orange nunca transforma o tempo em algo completamente seguro. Não existe garantia de que tudo será corrigido simplesmente porque Naho recebeu uma carta. Saber o futuro não significa automaticamente saber como mudá-lo. Saber que alguém está sofrendo não significa saber exatamente como chegar até essa pessoa. Saber que você ama alguém não significa ter coragem para dizer isso.

E é nesse espaço entre saber e conseguir agir que a história encontra grande parte de sua força.

Orange também fala muito sobre culpa, e esse é um tema que merece atenção. Seria muito fácil construir a narrativa como se Naho tivesse sido responsável por tudo que aconteceu porque não percebeu antes. Mas a realidade emocional da história é mais complexa. Pessoas podem amar umas às outras e ainda assim não perceber tudo. Podem querer ajudar e não saber como. Podem fazer uma escolha errada sem imaginar suas consequências. Podem estar preocupadas e ainda assim falhar.

Isso não significa que o cuidado seja inútil. Significa apenas que seres humanos são limitados.

E talvez uma das mensagens mais maduras de Orange seja justamente essa: amar alguém não significa automaticamente saber como salvá-lo. Mas reconhecer que não temos todas as respostas não deve nos impedir de tentar cuidar.

A trajetória de publicação do próprio mangá também é curiosa. Orange começou em 2012 na revista Bessatsu Margaret, da Shueisha, mas entrou em hiato após os primeiros volumes devido a problemas de saúde enfrentados por Ichigo Takano. Posteriormente, a obra foi retomada na Monthly Action, da Futabasha, e chegou à conclusão em 2015. A publicação brasileira da JBC começou em 2015, originalmente acompanhando os cinco volumes da história principal. Posteriormente, a autora produziu material complementar que deu origem aos volumes 6 e 7, fazendo com que a coleção brasileira chegasse a sete volumes.

A edição brasileira da JBC também ajuda a tornar a obra bastante acessível para quem deseja conhecer a série completa. E existe algo interessante no fato de Orange ter passado por diferentes revistas e categorias editoriais ao longo de sua trajetória, porque a obra realmente não cabe confortavelmente em uma única definição. É romance, drama, ficção científica, cotidiano e história de amadurecimento. Ao mesmo tempo, possui uma abordagem bastante séria sobre sofrimento psicológico, perda e relações humanas.

E talvez seja justamente essa mistura que tenha permitido que Orange permanecesse tão marcante.

Porque ele consegue começar como uma história aparentemente simples sobre uma garota que recebe uma carta do futuro e terminar como uma reflexão sobre as pessoas que deixamos entrar em nossas vidas, as escolhas que fazemos e as coisas que gostaríamos de ter dito.

Nem tudo funciona de maneira perfeita. Existem momentos em que o melodrama pode parecer excessivo, algumas decisões dos personagens podem provocar frustração e a própria estrutura temporal exige que o leitor aceite determinadas regras muito mais pelo impacto emocional do que por uma explicação científica rigorosa. Mas exigir de Orange uma lógica matemática perfeita talvez seja perder o ponto principal da obra. A viagem no tempo é uma ferramenta narrativa. O coração da história está em outro lugar. Está nas pessoas. Está nas relações. Está no arrependimento. Está na esperança. E, principalmente, está no desejo de fazer diferente.

No fim, talvez a pergunta mais importante de Orange não seja se é possível mudar o futuro. A pergunta é o que fazemos com as pessoas enquanto ainda temos tempo.

Uma conversa. Um convite. Uma mensagem. Uma mão estendida. Um “vamos juntos”. Um “fica mais um pouco”. Um “eu percebi que você não está bem”. São gestos pequenos, mas dentro de Orange pequenas coisas podem carregar um peso gigantesco.

É por isso que a obra consegue ultrapassar a própria história de Naho e Kakeru. Ela fala de qualquer pessoa que já esteve ao nosso lado e parecia bem. Fala de amizades que poderiam ter sido cuidadas melhor. De conversas adiadas. De mensagens que nunca foram enviadas. De abraços que ficaram para depois. De pessoas que amamos e que, às vezes, não sabemos amar da maneira que elas precisam.

E fala também de nós. Todos temos algum “e se”. Todos temos momentos que gostaríamos de revisitar. Todos temos coisas que gostaríamos de dizer a alguém.

Talvez seja por isso que Orange mude dependendo da idade de quem lê. Na adolescência, pode ser uma história sobre amizade, primeiro amor e escolhas. Mais tarde, pode se transformar em uma história sobre arrependimento, responsabilidade e as consequências das decisões. Para alguém que já passou por perdas, mudanças ou períodos difíceis, algumas passagens podem atingir lugares completamente diferentes. A história envelhece junto com o leitor. E isso é uma qualidade enorme.

Porque existem obras que nós lemos uma vez e compreendemos. E existem obras que nós lemos em momentos diferentes da vida e encontramos coisas diferentes dentro delas. Orange pertence muito mais à segunda categoria.

Na primeira leitura, talvez você acompanhe Naho. Em outra, talvez perceba Suwa. Depois, talvez compreenda Kakeru de outra maneira. E, em algum momento, talvez encontre a si mesmo em uma das cartas.

Essa é a beleza de Orange.

Ele não diz que podemos controlar tudo. Não promete que o amor sempre resolve. Não transforma amizade em uma solução mágica. Não elimina a dor. O que ele faz é lembrar que, enquanto o futuro ainda não chegou, o presente continua sendo um espaço onde podemos fazer escolhas.

E talvez seja justamente essa a mensagem que permanece depois da última página.

Não é sobre voltar no tempo. É sobre perceber que ainda estamos nele. Ainda existe hoje. Ainda existe uma conversa que pode ser iniciada. Ainda existe alguém que pode ser ouvido. Ainda existe uma amizade que pode ser cuidada. Ainda existe tempo para dizer aquilo que ficou preso na garganta.

Orange é, acima de tudo, uma história sobre segundas chances. Não no sentido de apagar o passado, como se tudo pudesse simplesmente deixar de ter acontecido, mas no sentido de reconhecer que aquilo que fazemos a partir de agora ainda pode mudar o que virá depois. O passado permanece. As escolhas continuam tendo acontecido. Mas o futuro ainda não está completamente escrito.

E talvez seja por isso que a carta da Naho adulta seja tão poderosa. Ela não está simplesmente tentando mudar acontecimentos. Ela está tentando alcançar alguém que ainda não sabe o quanto é importante. No fim, talvez a carta mais importante de Orange não seja aquela enviada dez anos para o passado. Talvez seja aquela que a própria história escreve para quem está lendo.

Uma carta sem nome, sem endereço e sem data. Uma carta que simplesmente diz: preste atenção. Olhe para quem está ao seu lado. Não deixe tudo para depois. Quando alguém disser que está tudo bem, talvez valha a pena perguntar mais uma vez. E, quando você não souber o que fazer, talvez o primeiro passo seja simplesmente permanecer.

Porque algumas histórias terminam quando fechamos o último volume. Orange continua um pouco dentro da gente.

Continua nas lembranças que a leitura desperta, nas perguntas que ficam depois da última página e naquela sensação estranha de querer voltar para determinados momentos da nossa própria vida, não necessariamente para mudá-los, mas apenas para olhar para eles com os olhos que temos hoje. Ichigo Takano construiu uma história que parece falar sobre o futuro, mas que, na verdade, está profundamente preocupada com o presente. Porque o futuro da Naho começou com uma carta. Mas o futuro dos personagens é construído pelas escolhas que eles fazem depois de lê-la. E talvez seja justamente aí que Orange encontre sua maior beleza: na ideia de que não precisamos ter certeza de que conseguiremos mudar tudo para decidir tentar. Às vezes, basta saber que alguém importa. Às vezes, basta estender a mão. Às vezes, basta ficar.

E, enquanto ainda houver tempo, talvez valha a pena tentar chegar ao amanhã juntos.

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