
Existem histórias em que a força está em uma espada. Outras encontram seu poder na magia, nos exércitos, nas habilidades sobrenaturais ou na capacidade de destruir aquilo que aparece no caminho. Jaadugar: A Witch in Mongolia, porém, escolhe um caminho muito diferente. Sua protagonista não precisa ser a pessoa mais forte da sala, nem aquela que consegue vencer uma batalha sozinha. Ela aprende. Observa. Escuta. Estuda. Memoriza. Compreende as pessoas ao seu redor e, principalmente, entende que, em um mundo no qual tantas decisões são tomadas por homens que jamais perguntariam a uma mulher o que ela deseja, o conhecimento pode se transformar em uma das poucas formas de poder que permanecem verdadeiramente suas. É justamente essa ideia que faz de Jaadugar uma das obras mais interessantes de sua temporada.
Em vez de utilizar a história do Império Mongol apenas como um cenário grandioso para uma aventura de fantasia, o anime olha para esse período através de pessoas que normalmente aparecem apenas nas margens dos grandes registros históricos. Mulheres, estudiosos, escravizados, famílias, relações políticas, casamentos e disputas internas passam a ocupar o centro da narrativa, e aquilo que poderia ser apenas uma história sobre um dos maiores impérios que o mundo já conheceu transforma-se em uma história muito mais íntima sobre sobrevivência, identidade, memória e poder.

A trama acompanha Sitara, uma jovem persa que tem sua vida completamente destruída durante a expansão do Império Mongol. Separada de sua terra e de sua família, ela acaba inserida em uma realidade que não escolheu e na qual precisa aprender rapidamente as regras para continuar existindo. Sua trajetória a aproxima de Fatima, uma mulher ligada a uma família de estudiosos, e é nesse ambiente que Sitara começa a perceber o valor que o conhecimento pode ter. A princípio, aprender parece apenas uma maneira de ocupar o tempo ou adquirir habilidades que poderiam ser úteis em sua nova realidade, mas, aos poucos, o estudo passa a representar algo muito maior. Saber ler, compreender diferentes culturas, conhecer medicina, observar comportamentos e entender as relações de poder são ferramentas que permitem a Sitara enxergar aquilo que outras pessoas não percebem. É uma transformação silenciosa. Ela não recebe uma espada mágica, não descobre um poder sobrenatural e não passa por uma transformação física espetacular. Ela simplesmente começa a entender o mundo em que está vivendo. E, quanto mais entende, mais difícil se torna controlá-la completamente.
É aí que Jaadugar encontra uma de suas melhores ideias: a inteligência da protagonista não é tratada como uma superpotência. Ela é uma ferramenta de sobrevivência. Sitara não estuda porque o roteiro precisa dizer que ela é uma personagem inteligente; ela estuda porque precisa encontrar maneiras de existir em uma sociedade que constantemente tenta determinar o lugar que ela deve ocupar. Essa diferença é fundamental. Existe algo muito humano na maneira como a personagem aprende a observar antes de agir, a compreender as intenções das pessoas e a reconhecer que determinadas informações podem ser mais valiosas do que qualquer demonstração de força. Em um anime tradicional de ação, conhecimento muitas vezes serve para descobrir a fraqueza de um inimigo. Em Jaadugar, conhecimento serve primeiro para compreender o próprio ambiente. E essa mudança de perspectiva faz com que até uma conversa aparentemente simples carregue uma tensão que, em outras histórias, seria reservada para uma batalha.

A relação entre Sitara e Töregene é outro elemento que transforma a série. As duas estão inseridas em posições completamente diferentes dentro da estrutura de poder, mas nenhuma delas possui liberdade absoluta. Sitara está tentando sobreviver a um mundo que lhe foi imposto; Töregene está dentro da própria estrutura imperial, cercada por pessoas, tradições e expectativas que também limitam suas escolhas. Essa proximidade e distância simultâneas fazem com que a relação entre as duas seja muito mais interessante do que uma simples amizade ou uma relação convencional entre senhora e subordinada. Existe interesse, necessidade, desconfiança, identificação e, em alguns momentos, uma espécie de reconhecimento silencioso. As duas sabem que estão vivendo dentro de um jogo muito maior do que elas mesmas e sabem também que demonstrar tudo aquilo que pensam pode ser perigoso. Em Jaadugar, muitas vezes aquilo que não é dito importa tanto quanto aquilo que é colocado em palavras.
Töregene, aliás, é uma das personagens que melhor representam a maneira como o anime trabalha suas mulheres. Ela não é simplesmente uma vilã ou uma mulher poderosa colocada na história para servir de contraponto à protagonista. Sua posição dentro da família imperial oferece privilégios que Sitara não possui, mas também impõe responsabilidades, expectativas e limitações. Estar próxima do poder não significa necessariamente controlar o poder. Essa contradição aparece diversas vezes na narrativa e impede que a história seja reduzida a uma divisão confortável entre opressores e oprimidos. As personagens possuem interesses próprios, tomam decisões questionáveis, fazem alianças, escondem informações e, algumas vezes, machucam outras pessoas para garantir a própria sobrevivência. Jaadugar não precisa transformar suas mulheres em heroínas perfeitas para demonstrar a importância delas. Pelo contrário: é justamente quando permite que elas sejam contraditórias que a história se torna mais humana.
Essa humanidade também aparece na maneira como o anime apresenta o Império Mongol. É muito fácil contar uma história sobre um grande império transformando seus conquistadores em protagonistas absolutos, concentrando toda a narrativa em batalhas, territórios conquistados e nomes que ficaram registrados nos livros. Jaadugar prefere perguntar o que acontecia com as pessoas que estavam vivendo dentro dessa estrutura. Como funcionavam as famílias? O que significava uma mudança de poder para uma mulher? O que acontecia quando uma pessoa era arrancada de seu país? Como alguém poderia construir uma nova identidade depois de perder a anterior? E o que acontece quando uma pessoa que aparentemente não possui poder descobre que pode influenciar acontecimentos através de informações e conhecimento? São perguntas que fazem a série parecer muito maior do que sua própria história.
Essa é também uma das razões pelas quais a política funciona tão bem dentro do anime. Jaadugar não precisa transformar cada conflito em uma batalha física porque entende que, naquele ambiente, uma informação pode ser tão perigosa quanto uma arma. Saber quem está doente, quem pretende formar uma aliança, quem está mentindo, quem possui determinada informação ou quem está tentando manipular determinada pessoa pode mudar completamente o destino de alguém. O espectador acaba sendo colocado na mesma posição dos personagens: é necessário prestar atenção. Um olhar pode significar alguma coisa. Uma mudança de comportamento pode indicar uma intenção escondida. Uma conversa aparentemente inocente pode carregar consequências que só serão compreendidas posteriormente. Existe um prazer particular em assistir a uma obra que não trata seu público como alguém que precisa receber todas as respostas imediatamente.
Embora seja uma obra de ficção histórica, Jaadugar também desperta curiosidade sobre a história real. A narrativa utiliza figuras, acontecimentos e estruturas que possuem raízes históricas, mas não pretende funcionar como um documentário. Isso é especialmente importante quando falamos de personagens como Töregene e de figuras associadas à corte mongol. A documentação histórica sobre muitas dessas mulheres é limitada quando comparada aos registros deixados sobre os homens que comandavam o império. É justamente nesse espaço entre aquilo que sabemos e aquilo que não sabemos que a ficção encontra liberdade para construir uma narrativa. Por isso, Jaadugar funciona melhor quando assistido como uma obra de ficção histórica que dialoga com acontecimentos reais, e não como uma reconstrução literal de cada detalhe do século XIII. E talvez exista algo especialmente interessante nisso: depois de assistir, é difícil não querer pesquisar. Quem foi Töregene? Como funcionava a sucessão dentro do Império Mongol? Como eram as relações entre os diferentes povos incorporados ao império? O que sabemos sobre as mulheres que viveram naquele período?
A obra consegue transformar curiosidade em consequência natural da experiência de assistir.
O título também merece atenção. Jaadugar está relacionado a uma palavra de origem persa associada à ideia de mágico ou feiticeiro, e a escolha ganha um significado bastante interessante quando pensamos na protagonista. A “magia” de Sitara não está necessariamente em poderes sobrenaturais. Está naquilo que ela sabe. Está na capacidade de aprender aquilo que o mundo ao redor dela tenta manter restrito. Existe uma inversão muito bonita do arquétipo da bruxa: em vez de uma mulher ser temida porque possui poderes inexplicáveis, ela pode ser considerada perigosa porque compreende coisas que outras pessoas não querem que ela compreenda. Em uma sociedade construída sobre hierarquias, informação é poder. E uma mulher que aprende a transformar informação em influência passa a representar uma ameaça muito maior do que sua posição social poderia sugerir.
Visualmente, o anime acompanha essa proposta com uma delicadeza que pode surpreender quem espera uma produção histórica mais pesada. A animação da Science SARU não transforma o mundo de Jaadugar em um cenário constantemente sombrio. Há cores suaves, expressões delicadas e uma direção que sabe quando desacelerar para observar seus personagens. Essa escolha cria um contraste muito interessante com a brutalidade de determinados acontecimentos. A história pode falar sobre guerra, escravidão, violência, perda e disputas de poder, mas nem sempre precisa representar essas coisas através de uma estética agressiva. Em muitos momentos, justamente a suavidade visual torna aquilo que acontece ainda mais doloroso. A beleza dos cenários e dos personagens não apaga a violência do mundo em que eles vivem; ela apenas mostra que pessoas continuam tentando encontrar beleza mesmo quando estão cercadas por circunstâncias terríveis.
A presença de Naoko Yamada na equipe também chama atenção, especialmente para quem acompanha anime pela maneira como uma obra constrói seus personagens. Jaadugar é uma história que depende muito mais de expressões, pausas e relações do que de grandes demonstrações de força, e isso cria espaço para uma direção que valoriza pequenos movimentos. A maneira como alguém olha para outra pessoa, como se senta, como reage diante de uma notícia ou como escolhe ficar em silêncio pode carregar significado. Não é uma animação que precisa estar constantemente tentando provar sua grandiosidade. Muitas vezes, sua força está justamente em deixar uma cena respirar.
A música segue uma lógica semelhante. A abertura “Stella”, do SEKAI NO OWARI, encontra o lado mais emocional e contemplativo da narrativa, enquanto “STAR”, da QUEEN BEE, utilizada no encerramento, reforça outra dimensão da história. É interessante perceber como a trilha e as canções ajudam a construir uma identidade para um anime que poderia facilmente ser vendido apenas como “uma história sobre o Império Mongol”. A música lembra que, por trás de impérios, guerras e grandes acontecimentos, existem pessoas tentando encontrar algum tipo de luz dentro de suas próprias histórias. E isso combina muito com a trajetória de Sitara, que começa em uma posição de perda e vulnerabilidade e, pouco a pouco, passa a descobrir que ainda possui coisas que ninguém conseguiu arrancar dela.
A recepção do público também ajuda a entender por que Jaadugar chamou tanta atenção ao longo da temporada. Em agregadores e comunidades de anime, a série recebeu avaliações bastante positivas, especialmente pelo desenvolvimento dos personagens, pela abordagem histórica e pela construção política da narrativa. A percepção não é absolutamente uniforme, como acontece com praticamente qualquer obra que se arrisca a adaptar acontecimentos históricos e representar culturas diferentes das do público que a assiste. Parte das discussões se concentra justamente na liberdade criativa utilizada pela obra e na maneira como uma ficção japonesa interpreta acontecimentos ligados à história mongol e persa. Esse debate, porém, não diminui o principal aspecto da recepção: Jaadugar conseguiu fazer com que espectadores discutissem não apenas se gostavam ou não do anime, mas também a história que existe por trás dele
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E existe uma razão para isso. O mangá de Tomato Soup já possuía reconhecimento antes da adaptação para anime, tendo recebido indicações e premiações importantes no Japão. Isso muda um pouco a maneira como devemos enxergar a série. Jaadugar não surgiu do nada como uma aposta desconhecida que por acaso encontrou uma boa adaptação. O anime está levando para um público muito maior uma obra que já vinha sendo reconhecida por sua abordagem pouco convencional da história. A seleção da adaptação para eventos importantes do circuito internacional de animação também ajudou a aumentar a atenção sobre a série. Quando juntamos isso à recepção positiva do público, fica mais fácil entender por que Jaadugar acabou se tornando uma das obras mais comentadas entre aqueles que procuravam algo diferente na temporada.
Mas talvez o maior mérito de Jaadugar seja justamente não tentar competir com os outros animes usando as mesmas armas. Em uma temporada em que muitos títulos apostam em ação, fantasia, poderes e grandes conflitos, a série parece caminhar em outra direção. Ela não precisa de uma explosão a cada episódio para manter o interesse. Não precisa transformar sua protagonista em uma guerreira invencível. Não precisa fazer com que cada personagem revele imediatamente sua verdadeira personalidade. Sua narrativa é construída com paciência, e essa paciência exige um espectador disposto a observar. Para algumas pessoas, isso pode ser justamente um dos defeitos da obra. Quem procura um ritmo acelerado pode sentir que determinados momentos demoram para chegar ao ponto. A quantidade de nomes, relações políticas e referências históricas também pode ser confusa para quem não está acostumado com esse tipo de narrativa. Mas, para quem aceita o ritmo proposto, existe uma recompensa considerável.
A primeira temporada funciona especialmente bem porque não transforma Sitara em alguém completamente diferente da menina que conhecemos no começo. Ela continua carregando suas perdas. Continua convivendo com sentimentos contraditórios. Continua tendo que tomar decisões difíceis. O que muda é sua capacidade de compreender o mundo ao redor. E talvez essa seja uma das formas mais interessantes de representar amadurecimento em uma história. Crescer não significa deixar de ter medo. Não significa deixar de sofrer. Não significa se tornar invulnerável. Às vezes, crescer significa simplesmente aprender a reconhecer o perigo antes que ele chegue.
É também por isso que a história de Sitara consegue ser tão universal mesmo estando ambientada em um período histórico tão distante. Não é necessário conhecer profundamente o Império Mongol para entender o sentimento de alguém que perdeu aquilo que conhecia e precisa aprender a existir em um lugar novo. Não é necessário ter vivido em uma corte imperial para compreender o medo de dizer a coisa errada para a pessoa errada. Não é necessário conhecer a política do século XIII para entender como uma informação pode mudar uma relação. Jaadugar usa um contexto histórico muito específico para falar de sentimentos que continuam existindo.
E é justamente nesse ponto que a série se distancia de uma simples obra “sobre mulheres na história”. Ela não está apenas colocando personagens femininas em acontecimentos que normalmente seriam protagonizados por homens. Ela está perguntando o que acontece quando olhamos para a história a partir de uma perspectiva diferente. Os grandes conquistadores continuam existindo. Os impérios continuam existindo. As guerras continuam existindo. Mas, dessa vez, a câmera permanece um pouco mais próxima de quem estava tentando sobreviver enquanto tudo isso acontecia. É uma mudança de perspectiva que pode parecer pequena, mas transforma completamente a narrativa.
Talvez seja por isso que Jaadugar tenha encontrado espaço entre espectadores que estavam procurando algo além da fórmula mais tradicional dos animes de temporada. Ele não precisa ser o anime mais barulhento, o mais cheio de ação ou aquele com a maior quantidade de acontecimentos por episódio. Sua proposta é outra. É uma obra para quem gosta de personagens que carregam histórias dentro de histórias, para quem se interessa por culturas e períodos históricos diferentes e, principalmente, para quem gosta quando um anime termina um episódio deixando mais perguntas do que respostas.
No final, Jaadugar: A Witch in Mongolia é uma história sobre poder, mas não exatamente sobre o poder que estamos acostumados a ver. Não é apenas o poder de governar um território ou comandar um exército. É o poder de saber. O poder de observar. O poder de compreender. O poder de guardar uma informação até que chegue o momento certo de utilizá-la. É o poder de continuar aprendendo mesmo quando o mundo ao redor insiste que você deveria apenas obedecer.
Sitara não precisa conquistar um império para provar seu valor. Sua luta é muito mais íntima. Ela precisa descobrir quem pode ser depois de perder aquilo que acreditava definir sua identidade. Precisa encontrar espaço dentro de uma sociedade que não lhe oferece liberdade gratuitamente. Precisa decidir quanto de si mesma está disposta a sacrificar para sobreviver e, principalmente, precisa descobrir se sobreviver será suficiente ou se um dia ela desejará algo além disso.
Talvez essa seja a verdadeira magia de Jaadugar. Não a magia sobrenatural que o título pode fazer alguém imaginar, mas aquela que nasce quando uma pessoa que aparentemente não possui poder começa a compreender o funcionamento do mundo ao seu redor. O conhecimento não devolve imediatamente aquilo que Sitara perdeu. Não apaga sua dor. Não desfaz sua história. Mas permite que ela deixe de ser apenas alguém a quem as coisas acontecem.
E, em uma história construída sobre mulheres que tantas vezes foram obrigadas a viver nas sombras das grandes decisões políticas, isso significa muito.
Porque, às vezes, a maior forma de resistência não é levantar uma espada. É aprender o suficiente para que ninguém consiga mais decidir seu destino sem levar você em consideração.
Ficha técnica
Jaadugar: A Witch in Mongolia
Título original: Tenmaku no Jaadugar
Obra original: Tomato Soup
Estúdio: Science SARU
Direção: Abel Góngora
Direção-executiva: Naoko Yamada
Design de personagens: Kenichi Yoshida
Gênero: drama histórico, ficção histórica
Ambientação: Império Mongol, século XIII
Protagonista: Sitara
Abertura: “Stella” — SEKAI NO OWARI
Encerramento: “STAR” — QUEEN BEE

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