{"id":994,"date":"2026-07-22T10:04:55","date_gmt":"2026-07-22T13:04:55","guid":{"rendered":"https:\/\/shinkansenotaku.com.br\/?p=994"},"modified":"2026-07-22T10:04:55","modified_gmt":"2026-07-22T13:04:55","slug":"review-queria-morrer-mas-no-ceu-nao-tem-tteokbokki","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/shinkansenotaku.com.br\/index.php\/2026\/07\/22\/review-queria-morrer-mas-no-ceu-nao-tem-tteokbokki\/","title":{"rendered":"Review | Queria morrer, mas no c\u00e9u n\u00e3o tem tteokbokki"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns livros s\u00e3o escritos para ensinar. Outros, para entreter. <em>Queria morrer, mas no c\u00e9u n\u00e3o tem tteokbokki<\/em>, de <strong>Baek Sehee<\/strong>, parece ter sido escrito para acompanhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o porque ele tenha respostas para as grandes perguntas da vida, mas porque reconhece a solid\u00e3o de quem j\u00e1 passou tempo demais tentando respond\u00ea-las. H\u00e1 uma delicadeza rara na forma como a autora transforma algo t\u00e3o \u00edntimo quanto suas sess\u00f5es de terapia em uma narrativa capaz de acolher pessoas completamente diferentes dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00edtulo chama aten\u00e7\u00e3o imediatamente. \u00c9 curioso, quase bem-humorado, e cria um contraste doloroso entre uma frase extrema e um prato tipicamente coreano. Mas, conforme a leitura avan\u00e7a, entendemos que ele resume perfeitamente a proposta do livro: mesmo quando a vida parece insuport\u00e1vel, ainda existem pequenas coisas que nos prendem a ela. N\u00e3o grandes acontecimentos ou discursos motivacionais, mas prazeres cotidianos, simples, quase banais. Um prato favorito. Uma conversa. Um momento de sil\u00eancio. Uma lembran\u00e7a. A esperan\u00e7a, aqui, nunca chega em forma de espet\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Baek Sehee escreve sobre depress\u00e3o persistente e distimia sem recorrer ao dramatismo. Seu sofrimento n\u00e3o \u00e9 apresentado como algo excepcional, mas como parte de uma rotina. E talvez seja justamente isso que mais impacta. A dor n\u00e3o aparece apenas nas grandes crises; ela tamb\u00e9m habita os dias comuns, os compromissos de trabalho, as conversas com amigos, as inseguran\u00e7as aparentemente pequenas que v\u00e3o se acumulando at\u00e9 se tornarem um peso dif\u00edcil de carregar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estrutura do livro, baseada nas conversas entre a autora e sua psiquiatra, \u00e9 um dos seus maiores acertos. Em vez de acompanhar uma narrativa tradicional, acompanhamos um processo. N\u00e3o existe um conflito central esperando uma resolu\u00e7\u00e3o. Existem pensamentos que retornam, d\u00favidas que insistem, medos que mudam de forma, mas permanecem presentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa repeti\u00e7\u00e3o pode causar estranhamento para quem espera uma hist\u00f3ria convencional. Em alguns momentos, tive a sensa\u00e7\u00e3o de estar caminhando em c\u00edrculos junto com a autora. Depois percebi que essa talvez seja justamente a experi\u00eancia que o livro deseja transmitir. A sa\u00fade mental raramente evolui em linha reta. Muitas vezes voltamos \u00e0s mesmas perguntas, revisitamos antigas inseguran\u00e7as e precisamos encarar os mesmos sentimentos in\u00fameras vezes antes que eles finalmente percam for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma honestidade quase desconcertante na maneira como Baek fala sobre si mesma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela admite sentir inveja de outras pessoas. Questiona constantemente seu pr\u00f3prio valor. Analisa excessivamente suas rela\u00e7\u00f5es. Busca aprova\u00e7\u00e3o. Cobra de si um desempenho imposs\u00edvel. E faz tudo isso sem tentar parecer mais interessante ou mais forte do que realmente \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa aus\u00eancia de idealiza\u00e7\u00e3o torna a leitura profundamente humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em diversos momentos, tive a impress\u00e3o de n\u00e3o estar lendo uma autobiografia, mas os pensamentos que muitas pessoas escondem por vergonha de admitir. Existe uma coragem enorme em escrever sobre aquilo que normalmente permanece apenas dentro da pr\u00f3pria cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, a psiquiatra nunca assume o papel de algu\u00e9m que entrega respostas definitivas. Ela faz perguntas. Questiona certezas. Convida Baek a observar seus pr\u00f3prios padr\u00f5es de comportamento. \u00c9 interessante perceber que muitas das descobertas surgem justamente quando a autora deixa de procurar solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e come\u00e7a, simplesmente, a observar a si mesma com menos rigidez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro tamb\u00e9m conversa, de maneira muito sutil, com a sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivemos em uma cultura que valoriza produtividade constante, felicidade permanente e autoconfian\u00e7a inabal\u00e1vel. Dentro desse contexto, admitir fragilidade parece quase um fracasso. Baek desafia essa l\u00f3gica ao mostrar que pessoas aparentemente bem-sucedidas tamb\u00e9m podem carregar um cansa\u00e7o invis\u00edvel. Nem sempre o sofrimento \u00e9 percept\u00edvel. \u00c0s vezes ele se esconde justamente atr\u00e1s de quem continua cumprindo todas as suas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse aspecto tornou a leitura ainda mais significativa para mim. N\u00e3o porque o livro ofere\u00e7a respostas universais, mas porque ele nos lembra que a experi\u00eancia humana \u00e9 muito menos organizada do que gostamos de acreditar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar das muitas qualidades, acredito que a obra n\u00e3o seja para todos os leitores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem procura uma narrativa din\u00e2mica ou uma hist\u00f3ria marcada por grandes acontecimentos pode sentir que o ritmo \u00e9 lento. As sess\u00f5es de terapia naturalmente retomam temas semelhantes, e isso exige disposi\u00e7\u00e3o para acompanhar um processo emocional em vez de uma sequ\u00eancia de eventos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m \u00e9 importante compreender que este n\u00e3o \u00e9 um manual de autoajuda. Baek Sehee n\u00e3o escreve para ensinar como superar a depress\u00e3o. Ela escreve para mostrar como \u00e9 viver com ela, question\u00e1-la e tentar compreend\u00ea-la. Existe uma diferen\u00e7a importante entre essas duas propostas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao terminar a leitura, fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o de que este livro fala menos sobre querer morrer e muito mais sobre aprender a permanecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Permanecer quando tudo parece pesado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Permanecer quando n\u00e3o existem respostas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Permanecer mesmo sem sentir que estamos melhorando na velocidade que gostar\u00edamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez essa seja a maior beleza da obra: ela recusa a ideia de que toda hist\u00f3ria precisa terminar em supera\u00e7\u00e3o. Algumas hist\u00f3rias terminam apenas com algu\u00e9m respirando um pouco melhor do que antes. E isso tamb\u00e9m importa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Queria morrer, mas no c\u00e9u n\u00e3o tem tteokbokki<\/em> n\u00e3o transforma a dor em espet\u00e1culo nem vende esperan\u00e7a f\u00e1cil. Em vez disso, oferece algo muito mais raro: uma conversa honesta sobre as partes de n\u00f3s que costumamos esconder. \u00c9 um livro silencioso, \u00edntimo e profundamente sens\u00edvel, que nos lembra de que continuar vivendo nem sempre exige grandes motivos. \u00c0s vezes, basta existir uma pequena raz\u00e3o para atravessar mais um dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o porque seja uma obra perfeita, mas porque sua maior qualidade est\u00e1 justamente em n\u00e3o tentar parecer perfeita. Ela aceita as imperfei\u00e7\u00f5es da mente humana, acolhe as contradi\u00e7\u00f5es e encontra beleza naquilo que muitas vezes tentamos esconder. Em tempos em que tantas narrativas prometem f\u00f3rmulas para a felicidade, Baek Sehee escolhe um caminho mais corajoso: mostrar que viver tamb\u00e9m \u00e9 aprender a conviver com as pr\u00f3prias rachaduras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns livros s\u00e3o escritos para ensinar. Outros, para entreter. Queria morrer, mas no c\u00e9u n\u00e3o tem tteokbokki, de Baek Sehee, parece ter sido escrito para acompanhar. N\u00e3o porque ele tenha respostas para as grandes perguntas da vida, mas porque reconhece a solid\u00e3o de quem j\u00e1 passou tempo demais tentando respond\u00ea-las. 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