Entre o silêncio e o sabor: o mergulho íntimo de Baek Se-hee em “Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki”

Há livros que nos atravessam como flechas. Outros nos envolvem como cobertores. E há aqueles raros que fazem as duas coisas ao mesmo tempo : nos ferem e nos acolhem. “Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki”, da sul-coreana Baek Se-hee, é um desses livros.

Publicado em 2018, o título já carrega uma contradição poética: o desejo de desaparecer confrontado com o prazer de comer algo simples e reconfortante. O tteokbokki, prato típico da Coreia do Sul feito de bolinhos de arroz apimentados, torna-se símbolo de tudo aquilo que ainda nos prende à vida ,mesmo quando a mente insiste em nos afastar dela.

Baek Se-hee, então com pouco mais de 20 anos, decidiu transformar suas sessões de terapia em literatura. Diagnosticada com depressão distímica e transtorno de ansiedade, ela não escreve sobre a doença como quem observa de fora. Ela escreve de dentro. E é justamente essa perspectiva que torna sua obra tão poderosa.

O livro é estruturado como uma série de diálogos entre autora e terapeuta, intercalados por reflexões pessoais. Não há grandes reviravoltas, nem soluções mágicas. O que há é processo. Um processo lento, doloroso, às vezes frustrante, como é o caminho da saúde mental. Baek não busca redenção. Ela busca compreensão. E ao fazer isso, oferece ao leitor algo raro: a permissão para sentir.

Sua escrita é direta, quase crua. Ela não se preocupa em parecer literária. Preocupa-se em ser honesta. E essa honestidade é o que transforma o livro em um espaço seguro para quem já se sentiu inadequado, ansioso, invisível. Baek fala sobre o medo de não ser suficiente, sobre a necessidade de agradar, sobre a exaustão de manter uma fachada funcional. Ela fala sobre o que muitos vivem, mas poucos verbalizam.

O impacto da obra foi imediato. Na Coreia do Sul, onde o estigma sobre saúde mental ainda é forte, o livro virou best-seller e ponto de partida para conversas antes silenciadas. Fora do país, conquistou leitores em diversos idiomas, especialmente jovens que encontraram nas palavras de Baek um espelho — e um alívio.

Mas o que torna “Queria morrer…” tão especial não é apenas seu conteúdo. É sua coragem. Baek Se-hee não apenas escreveu sobre dor. Ela publicou. Ela expôs. Ela se permitiu ser vista em sua vulnerabilidade. E isso, em um mundo que exige máscaras, é revolucionário.

A morte precoce da autora, aos 35 anos, em outubro de 2025, deixou um vazio profundo. Mas seu gesto final — a doação de órgãos que salvou cinco vidas — é um testemunho de sua generosidade e do impacto que ela desejava causar. Sua obra permanece como legado, como farol, como abraço.

Como escritora, como leitora, como mulher, afirmo: “Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki” é mais do que um livro. É um manifesto silencioso. Uma carta de amor àqueles que ainda estão tentando. Uma lembrança de que, mesmo nos dias mais escuros, há sabor. Há afeto. Há vida.

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