Review | Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki

Alguns livros são escritos para ensinar. Outros, para entreter. Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki, de Baek Sehee, parece ter sido escrito para acompanhar.

Não porque ele tenha respostas para as grandes perguntas da vida, mas porque reconhece a solidão de quem já passou tempo demais tentando respondê-las. Há uma delicadeza rara na forma como a autora transforma algo tão íntimo quanto suas sessões de terapia em uma narrativa capaz de acolher pessoas completamente diferentes dela.

O título chama atenção imediatamente. É curioso, quase bem-humorado, e cria um contraste doloroso entre uma frase extrema e um prato tipicamente coreano. Mas, conforme a leitura avança, entendemos que ele resume perfeitamente a proposta do livro: mesmo quando a vida parece insuportável, ainda existem pequenas coisas que nos prendem a ela. Não grandes acontecimentos ou discursos motivacionais, mas prazeres cotidianos, simples, quase banais. Um prato favorito. Uma conversa. Um momento de silêncio. Uma lembrança. A esperança, aqui, nunca chega em forma de espetáculo.

Baek Sehee escreve sobre depressão persistente e distimia sem recorrer ao dramatismo. Seu sofrimento não é apresentado como algo excepcional, mas como parte de uma rotina. E talvez seja justamente isso que mais impacta. A dor não aparece apenas nas grandes crises; ela também habita os dias comuns, os compromissos de trabalho, as conversas com amigos, as inseguranças aparentemente pequenas que vão se acumulando até se tornarem um peso difícil de carregar.

A estrutura do livro, baseada nas conversas entre a autora e sua psiquiatra, é um dos seus maiores acertos. Em vez de acompanhar uma narrativa tradicional, acompanhamos um processo. Não existe um conflito central esperando uma resolução. Existem pensamentos que retornam, dúvidas que insistem, medos que mudam de forma, mas permanecem presentes.

Essa repetição pode causar estranhamento para quem espera uma história convencional. Em alguns momentos, tive a sensação de estar caminhando em círculos junto com a autora. Depois percebi que essa talvez seja justamente a experiência que o livro deseja transmitir. A saúde mental raramente evolui em linha reta. Muitas vezes voltamos às mesmas perguntas, revisitamos antigas inseguranças e precisamos encarar os mesmos sentimentos inúmeras vezes antes que eles finalmente percam força.

Há uma honestidade quase desconcertante na maneira como Baek fala sobre si mesma.

Ela admite sentir inveja de outras pessoas. Questiona constantemente seu próprio valor. Analisa excessivamente suas relações. Busca aprovação. Cobra de si um desempenho impossível. E faz tudo isso sem tentar parecer mais interessante ou mais forte do que realmente é.

Essa ausência de idealização torna a leitura profundamente humana.

Em diversos momentos, tive a impressão de não estar lendo uma autobiografia, mas os pensamentos que muitas pessoas escondem por vergonha de admitir. Existe uma coragem enorme em escrever sobre aquilo que normalmente permanece apenas dentro da própria cabeça.

Ao mesmo tempo, a psiquiatra nunca assume o papel de alguém que entrega respostas definitivas. Ela faz perguntas. Questiona certezas. Convida Baek a observar seus próprios padrões de comportamento. É interessante perceber que muitas das descobertas surgem justamente quando a autora deixa de procurar soluções rápidas e começa, simplesmente, a observar a si mesma com menos rigidez.

O livro também conversa, de maneira muito sutil, com a sociedade contemporânea.

Vivemos em uma cultura que valoriza produtividade constante, felicidade permanente e autoconfiança inabalável. Dentro desse contexto, admitir fragilidade parece quase um fracasso. Baek desafia essa lógica ao mostrar que pessoas aparentemente bem-sucedidas também podem carregar um cansaço invisível. Nem sempre o sofrimento é perceptível. Às vezes ele se esconde justamente atrás de quem continua cumprindo todas as suas obrigações.

Esse aspecto tornou a leitura ainda mais significativa para mim. Não porque o livro ofereça respostas universais, mas porque ele nos lembra que a experiência humana é muito menos organizada do que gostamos de acreditar.

Apesar das muitas qualidades, acredito que a obra não seja para todos os leitores.

Quem procura uma narrativa dinâmica ou uma história marcada por grandes acontecimentos pode sentir que o ritmo é lento. As sessões de terapia naturalmente retomam temas semelhantes, e isso exige disposição para acompanhar um processo emocional em vez de uma sequência de eventos.

Também é importante compreender que este não é um manual de autoajuda. Baek Sehee não escreve para ensinar como superar a depressão. Ela escreve para mostrar como é viver com ela, questioná-la e tentar compreendê-la. Existe uma diferença importante entre essas duas propostas.

Ao terminar a leitura, fiquei com a sensação de que este livro fala menos sobre querer morrer e muito mais sobre aprender a permanecer.

Permanecer quando tudo parece pesado.

Permanecer quando não existem respostas.

Permanecer mesmo sem sentir que estamos melhorando na velocidade que gostaríamos.

Talvez essa seja a maior beleza da obra: ela recusa a ideia de que toda história precisa terminar em superação. Algumas histórias terminam apenas com alguém respirando um pouco melhor do que antes. E isso também importa.

Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki não transforma a dor em espetáculo nem vende esperança fácil. Em vez disso, oferece algo muito mais raro: uma conversa honesta sobre as partes de nós que costumamos esconder. É um livro silencioso, íntimo e profundamente sensível, que nos lembra de que continuar vivendo nem sempre exige grandes motivos. Às vezes, basta existir uma pequena razão para atravessar mais um dia.

Não porque seja uma obra perfeita, mas porque sua maior qualidade está justamente em não tentar parecer perfeita. Ela aceita as imperfeições da mente humana, acolhe as contradições e encontra beleza naquilo que muitas vezes tentamos esconder. Em tempos em que tantas narrativas prometem fórmulas para a felicidade, Baek Sehee escolhe um caminho mais corajoso: mostrar que viver também é aprender a conviver com as próprias rachaduras.

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