“Eu e Meu Avô Nihonjin” é uma joia da animação brasileira que entrelaça memória, identidade e imigração com sensibilidade rara e estética deslumbrante.

Dirigido por Célia Catunda e inspirado no premiado romance Nihonjin de Oscar Nakasato, o longa-metragem Eu e Meu Avô Nihonjin é uma obra que transcende o gênero da animação infantil para se tornar um retrato poético e profundo da experiência nipo-brasileira. Com roteiro de Rita Catunda e produção da Pinguim Content, o filme é uma celebração dos 130 anos de amizade entre Brasil e Japão, mas também um mergulho íntimo nas dores e silêncios de uma família marcada pela diáspora.

A narrativa acompanha Noboru, um garoto de 10 anos descendente de japoneses, que precisa apresentar um trabalho escolar sobre a história de sua família. A partir dessa tarefa aparentemente simples, inicia-se uma jornada emocional e investigativa ao lado de seu avô Hideo, um homem rígido e silencioso, que evita falar do passado. O que começa como uma busca por informações vira um processo de descoberta identitária, revelando segredos familiares — como a existência de um tio desconhecido — e resgatando memórias enterradas sob o peso da tradição e do tempo.

O que mais impressiona é a estética visual do filme. A direção de arte, inspirada na obra do artista nipo-brasileiro Oscar Oiwa, combina traços delicados da animação 2D feita à mão com elementos visuais que evocam tanto o Japão tradicional quanto o Brasil contemporâneo. Essa fusão estética reforça o tema central do filme: a convivência entre culturas, o pertencimento e a construção de identidade em meio a heranças múltiplas.

A trilha sonora, assinada por André Abujamra e Marcio Nigro, é outro ponto alto. Ela costura sonoridades japonesas e brasileiras com maestria, criando uma atmosfera sonora que acompanha com sutileza as emoções dos personagens e os momentos de revelação. A música não apenas embala a narrativa, mas também a enriquece, funcionando como ponte entre gerações e culturas.

Do ponto de vista temático, o filme é um exemplo de como a animação pode ser um veículo poderoso para discutir questões complexas como imigração, memória histórica, identidade cultural e reconciliação familiar. A escolha de contar essa história pelo olhar de uma criança é particularmente eficaz: Noboru representa a curiosidade, a abertura e a vontade de compreender o passado para construir um futuro mais íntegro. Já Hideo, o avô, encarna a dor do exílio, o orgulho cultural e os traumas não verbalizados que atravessam gerações.

Eu e Meu Avô Nihonjin não se prende à fidelidade literal ao livro que o inspira — e isso é uma virtude. Como bem apontado por críticos, a adaptação se permite respirar, encontrar sua própria linguagem e explorar a potência do audiovisual para criar uma experiência sensorial e emocional única.

Em suma, trata-se de um filme necessário, especialmente em um país que ainda carece de representações mais amplas e profundas de suas múltiplas identidades. É uma obra que emociona, educa e encanta — e que merece ser celebrada como um marco na animação nacional.

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