Lera Abova revela como encontrou sua própria Nico Robin e fala sobre pressão, fãs e bastidores de One Piece no Imagineland

Design de Mellissa Sousa

Em coletiva realizada em Campina Grande, atriz contou que não acompanhava o anime antes de assumir o papel, falou sobre a escolha de Eiichiro Oda, revelou detalhes dos cenários da série e explicou por que preferiu construir Robin a partir dos sentimentos

Interpretar uma personagem que já existe há décadas na imaginação de milhões de pessoas é, por si só, um desafio. Fazer isso diante de uma comunidade de fãs que conhece cada detalhe de sua trajetória acrescenta uma camada ainda maior de expectativa. Para Lera Abova, porém, interpretar Nico Robin no live-action de One Piece significou justamente encontrar um equilíbrio entre aquilo que o público já conhecia e aquilo que ela poderia acrescentar à personagem.

Foi sobre esse processo — e sobre o que significa entrar em um universo que já estava vivo antes de sua chegada — que a atriz conversou neste domingo (27), durante uma coletiva de imprensa realizada no Imagineland On The Road 2026, em Campina Grande.

Lera Abova chegou ao festival como uma das atrações internacionais do último dia do evento, mas a conversa com a imprensa foi muito além da divulgação da série. Ao falar sobre Robin, a atriz revelou um processo de construção bastante particular: ela não era uma fã de longa data de One Piece quando recebeu o papel.

E foi justamente essa distância inicial em relação à personagem que, segundo Lera, acabou se transformando em uma espécie de liberdade.

“Eu nunca tinha assistido a One Piece”

Antes de ser escolhida para interpretar Robin, Lera não acompanhava a obra de Eiichiro Oda. Em vez de enxergar isso como uma desvantagem, a atriz explicou que a ausência de uma referência anterior permitiu que ela se aproximasse da personagem sem tentar reproduzir automaticamente uma interpretação já conhecida pelo público.

“Acho que as reações à minha interpretação apenas me mostraram que eu estava no caminho certo. E eu nunca tinha assistido a One Piece antes, o que também me deu uma grande liberdade para simplesmente sentir a personagem, sem vê-la antes e sem ficar presa demais a uma interpretação já existente”, explicou.

A preparação, portanto, não começou pela tentativa de copiar a Robin que os fãs já conheciam do anime e do mangá. Lera buscou entender quem era aquela mulher, suas circunstâncias e, principalmente, seus sentimentos.

“Como atriz, eu simplesmente precisava entender quem ela era. E acho que consegui me conectar com Nico Robin principalmente no nível dos sentimentos”, afirmou.

Essa escolha se torna particularmente interessante porque Robin não é uma personagem simples de traduzir para o live-action. Antes mesmo de revelar sua verdadeira identidade, ela aparece como Miss All Sunday, uma figura misteriosa, inteligente e perigosa, diretamente ligada à Baroque Works e a Mr. 0.

Para o espectador que já conhece a história, existe uma informação escondida em praticamente cada gesto da personagem. Para Lera, o desafio estava em construir essa mulher sem deixar que a quantidade de expectativas externas determinasse cada escolha.

Uma personagem que já estava “viva”

Se havia algo que Lera sabia antes mesmo de pisar no set, era que Nico Robin não começaria a existir quando ela aparecesse em cena.

A personagem já tinha uma história, uma personalidade, uma trajetória marcada por perdas e, principalmente, uma relação afetiva construída com fãs ao redor do mundo. Durante a coletiva, a atriz resumiu essa percepção em uma frase que talvez traduza melhor do que qualquer outra o tamanho da responsabilidade que assumiu:

“Para mim é uma grande honra dar vida a uma personagem que já estava viva para tantas pessoas.”

O contato com os fãs fez essa dimensão ficar ainda mais concreta. Segundo Lera, pessoas se aproximam dela em convenções para contar histórias pessoais relacionadas a Robin e explicar o que a personagem representa em suas vidas.

“Há pessoas que vêm falar comigo e dizem que ela mudou a vida delas, que significa muito poder me encontrar, me tocar, dizer ‘oi’ e conversar comigo.”

Para a atriz, essa é uma das características mais fascinantes de transformar uma obra de animação e mangá em uma produção com atores reais. “O live-action é algo muito bonito de maneira geral, porque você transforma algo em algo vivo, concreto.”

O peso de interpretar uma personagem que os fãs já escolheram

Muito antes de Lera Abova ser anunciada como Nico Robin, os fãs de One Piece já tinham suas próprias ideias sobre quem deveria interpretar a arqueóloga. O chamado fancast fazia parte da conversa na internet e criou uma expectativa que acompanhou a escalação.

A atriz reconheceu que esse cenário acrescentou pressão ao trabalho.

“O desafio, como atriz, é conseguir fazer o seu próprio trabalho e trazer a sua interpretação, mas ao mesmo tempo entendendo que essa personagem já existia antes de você.”

Ela também lembrou que havia uma expectativa construída pelo próprio público antes de sua chegada.

“Todo mundo já tem muitas expectativas. As pessoas já tinham criado uma ideia de como ela deveria ser, inclusive com todo aquele fancast que existia antes de eu entrar para a série.”

Nesse processo, a participação de Eiichiro Oda teve um peso importante para Lera. Segundo a atriz, o criador de One Piece participou do processo de escolha do elenco — algo que ajudou a diminuir parte da pressão sobre ela.

“Nós fomos escolhidos pelo Oda durante o processo de escalação, e acho que os fãs de One Piece confiam no Oda-sensei. Isso também tirou uma grande pressão de cima de mim pessoalmente.”

Antes de conhecer Robin, Lera conheceu Water 7

Embora não tenha entrado na produção como uma espectadora que acompanhava a obra há anos, Lera passou a mergulhar no universo de One Piece durante o processo.

Um dos momentos que mais a marcou foi justamente o arco de Water 7, uma parte fundamental da trajetória de Robin.

“Eu assisti, sim, ao arco de Water 7, e adorei. Eu chorei assistindo e pensei: ‘Sim, talvez eu possa trazer um pouco disso para a personagem’”, contou.

A experiência, porém, não fez com que ela abandonasse sua própria maneira de trabalhar. Lera explicou que prefere não transformar o material original em uma espécie de manual de interpretação.

Para ela, sentir o momento é tão importante quanto conhecer aquilo que já foi estabelecido.

“Acho muito importante também estar presente no momento e sentir aquilo que você está sentindo, em vez de simplesmente reproduzir algo que já existe.”

A atriz explicou ainda que outros integrantes do elenco possuem métodos diferentes e podem estudar profundamente seus personagens e a obra original. Seu próprio processo, entretanto, parte muito mais das relações e das emoções presentes em cada cena.

“Eu interpreto muito a partir do sentimento e do que está acontecendo ao meu redor. Eu sinto bastante a conexão dos outros personagens com a minha personagem e vou construindo a interpretação a partir disso também.”

O que Lera encontrou de si em Nico Robin

A conexão com Robin também passou por sentimentos que ultrapassam a história específica da personagem.

Durante a conversa, Lera mencionou emoções como vazio, raiva e desespero presentes na trajetória da arqueóloga. Ela fez questão, porém, de diferenciar suas experiências pessoais da história extremamente dolorosa vivida por Robin.

“Claro que nós viemos de lugares diferentes e o trauma dela é muito mais profundo, mas acho que o mais importante é entender o que essas experiências fazem com você, a pessoa em que você se transforma e a maneira como você passa a enxergar e atravessar o mundo.”

É nesse ponto que a atriz encontrou uma das principais portas de entrada para sua interpretação: a capacidade de continuar existindo depois de experiências capazes de transformar completamente uma pessoa.

“Mesmo carregando determinadas dores, em algum momento você decide, de certa forma, renascer. Às vezes, você precisa fazer isso simplesmente para conseguir se salvar e continuar seguindo em frente.”

A fala ajuda a compreender uma característica importante da versão apresentada no live-action: para Lera, Robin não é construída apenas a partir de sua inteligência, de seu mistério ou de sua força. Existe também uma mulher tentando entender o que fazer com tudo aquilo que carregou durante a vida.

O mundo de One Piece existe de verdade no set

Se existe um universo em One Piece que parece grande demais para ser transportado para a realidade, Lera garante que boa parte dele realmente foi construída diante das câmeras.

A atriz contou que uma das coisas que mais podem surpreender quem assiste à série é descobrir quanto daquele mundo existe fisicamente nos sets de gravação.

“Vocês provavelmente ficariam surpresos ao descobrir que praticamente todo aquele universo é construído de verdade.”

Os efeitos visuais fazem parte da produção, mas não são responsáveis por tudo o que aparece na tela. Segundo Lera, cenários, objetos e figurinos são efetivamente construídos e utilizados durante as filmagens.

“Claro que existe bastante CGI, mas muita coisa é realmente construída. Temos figurinos incríveis. Então, muitas coisas que aparecem em cena são reais e estão fisicamente no set, em vez de serem criadas por computador.”

E, segundo a atriz, a construção desse universo também acontece na relação entre os próprios integrantes do elenco. Ela destacou o ambiente de trabalho e comentou que existem semelhanças entre alguns atores e os personagens que interpretam.

Entre eles está Iñaki Godoy, intérprete de Monkey D. Luffy. Lera falou com carinho sobre o ator e destacou a energia que ele leva para as gravações, descrevendo-o como uma das pessoas que movimentam o ambiente do set e que possui características próximas às de seu personagem.

De Miss All Sunday a Nico Robin

Na segunda temporada, Lera é apresentada inicialmente como Miss All Sunday, ligada à Baroque Works e a Mr. 0. A verdadeira identidade da personagem é revelada no decorrer da temporada, chegando ao oitavo episódio.

A transformação não representa apenas uma mudança de nome. É o momento em que o público começa a enxergar a mulher por trás da figura misteriosa que circulava pela história.

Robin chega à trama carregando uma trajetória que atravessa abandono, sobrevivência e conhecimento. Como arqueóloga, seu interesse pelos Poneglyphs também a coloca no centro de elementos fundamentais para compreender o passado do mundo de One Piece.

E é justamente essa história que Lera agora ajuda a transportar para uma nova linguagem.

A atriz já está confirmada como integrante regular da terceira temporada da série, ampliando sua participação na produção.

A presença de Lera Abova no Imagineland On The Road 2026 colocou Campina Grande no roteiro de uma das atrizes que chegam à franquia em um momento de grande expectativa em torno da expansão de seu universo live-action.

O festival ocupou o Centro de Convenções de Campina Grande entre os dias 25 e 27 de setembro, reunindo atrações de cinema, televisão, games, quadrinhos, anime, cosplay, música e cultura pop.

Nesta edição, o público também encontrou nomes como Corbin Bleu, Monique Coleman e Lucas Grabeel, de High School Musical; Walter Jones, o primeiro Ranger Preto de Power Rangers; Zach Roerig, de The Vampire Diaries; e o cantor e ator sul-coreano Lee Jin-hyuk.

Para Lera, entretanto, a passagem pelo festival parece ter sido menos sobre simplesmente apresentar uma personagem e mais sobre encontrar, pessoalmente, algumas das pessoas que já carregavam uma relação com ela.

A programação reservou à atriz participação no Red Carpet dedicado a One Piece, sessão de autógrafos e atividades com os fãs.

Poucos meses depois da chegada da segunda temporada, a intérprete de Nico Robin desembarcou na Paraíba para encontrar um público que conhecia a personagem muito antes dela vestir o figurino.

Essa é a parte que torna a passagem da atriz pelo Imagineland maior do que uma simples participação em um evento: por alguns minutos, a personagem que durante anos existiu no papel, na tela e na imaginação dos fãs ganhou uma voz, um rosto e uma história para contar.

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